A Cumplicidade Política dos EUA no Genocídio em Gaza

Desde outubro de 2023, os Estados Unidos canalizaram mais de 21 mil milhões de dólares em apoio militar a Israel. Os números, divulgados pelo Projecto Custos da Guerra da Universidade Brown, não deixam margem para dúvida: trata-se de um financiamento maciço, contínuo e consciente. Numa altura em que relatores especiais da ONU, juristas internacionais e organizações de direitos humanos afirmam já abertamente que em Gaza decorre um genocídio, a questão deixa de ser apenas moral — torna-se também política e jurídica.

A cumplicidade política dos EUA não se mede apenas pelo fluxo de dinheiro e armamento, mas pela persistência deliberada em apoiar um Estado que viola sistematicamente o direito internacional. Washington tem vetado sucessivas resoluções do Conselho de Segurança que pediam cessar-fogo ou investigações independentes. Esse veto não é neutro: é um ato de cobertura diplomática, um escudo político que permite a Israel prolongar a destruição e o bloqueio sobre Gaza.

A dimensão do apoio financeiro torna-se ainda mais obscena quando se percebe o seu custo interno. O valor gasto em apoio militar externo — cerca de 21,7 mil milhões de dólares — seria mais do que suficiente para evitar os cortes anuais em programas de saúde pública e em agências sociais norte-americanas. De acordo com dados do National Priorities Project, esse montante poderia financiar, por exemplo, a construção de 200 hospitais comunitários, a cobertura médica anual de mais de 10 milhões de norte-americanos, ou a manutenção de milhares de centros de apoio a idosos e veteranos que enfrentam reduções orçamentais desde 2022.

Enquanto hospitais e escolas nos Estados Unidos lutam contra falta de recursos, o Tesouro federal sustenta uma guerra que destrói infraestruturas civis a milhares de quilómetros de distância. É um paradoxo moral e político: o país mais rico do mundo financia destruição no exterior enquanto reduz o apoio ao bem-estar dos seus próprios cidadãos.

O argumento habitual da “autodefesa” há muito perdeu legitimidade. Quando a resposta militar ultrapassa qualquer proporcionalidade e transforma bairros inteiros em ruínas, hospitais em alvos e crianças em estatísticas, a autodefesa converte-se em retaliação cega — e, por vezes, em extermínio. Ao continuar a fornecer armas, logística e financiamento a um governo que prossegue esta política, os EUA tornam-se parte da cadeia causal. Não disparam as bombas, mas garantem que não faltem nem bombas, nem justificação.

Em termos jurídicos, provar a complicidade num genocídio exige demonstrar conhecimento e intenção. Mas no plano político, a evidência é clara: o governo norte-americano sabe perfeitamente o que está a financiar. Sabe das dezenas de milhares de mortos civis, das expulsões em massa, da fome imposta e da destruição deliberada das infraestruturas básicas. Ainda assim, continua a fornecer meios e cobertura diplomática. Essa persistência consciente é o que define a cumplicidade — mesmo quando o direito hesita, a moral não.

Ao longo da história, os EUA têm justificado o seu apoio incondicional a Israel em nome da “aliança estratégica” e da “defesa da democracia”. Mas uma democracia que depende da aniquilação de outro povo deixa de o ser. Quando um país, com plena consciência das consequências, escolhe sustentar financeiramente e proteger politicamente um regime que pratica atos de destruição sistemática contra uma população civil, torna-se cúmplice — se não juridicamente, pelo menos moral e politicamente.

O mundo não precisa de mais relatórios. Precisa de coragem para chamar as coisas pelo nome. E o nome disso é genocídio — e cumplicidade.


Referências:

  • Brown University, Project on the Costs of War — “U.S. Military Support to Israel, October 2023–2024”.
  • National Priorities Project — “Federal Budget Trade-offs: What $21.7 Billion Could Fund Domestically”, 2024.
  • Relatores Especiais da ONU (Francesca Albanese, Michael Fakhri, Paula Gaviria Betancur): Declaração conjunta, março de 2024 — “Israel’s actions in Gaza amount to genocide”.
  • Tribunal Internacional de Justiça (TIJ) — Ordem de Medidas Provisórias no processo África do Sul vs. Israel, janeiro de 2024 (reconhecimento de indícios plausíveis de genocídio).
  • Centro para os Direitos Constitucionais (CCR) — Petição ao Tribunal Penal Internacional, fevereiro de 2024.

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