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                                                O Cigano Desenhava sempre. Era um gesto tão natural como respirar — e talvez mais necessário. Desenhava nos separadores dos cadernos da escola, nas costas das carteiras de fósforos , nas folhas verdes de mata-borrão que cobriam as secretárias no escritório, nas toalhas de papel dos cafés, nos guardanapos amassados pelo tempo e pela pressa. Com um traço ou dois, contava pequenas histórias. Eram cenas silenciosas — às vezes ternas, outras inquietas — onde deixava escorregar sentimentos que não sabiam pedir licença. Uma tarde, estava a tomar café no Bristol, ali mesmo ao lado da Sede do Benfica, na Rua Jardim do Regedor. Desenhava num papel qualquer — não sei o quê, talvez um rosto, talvez um cavalo, talvez só o que me apetecia escapar do dia. Um homem de barbas, com ar de cigano, aproximou-se. — Queres trabalhar par...
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  Liberdade a Duas Cores Nos finais dos anos 60, Portugal vivia de cabeça baixa. Mas eu andava de olhos abertos. Trabalhava de dia, estudava à noite. E entre um turno e uma aula, desenhava. Este desenho foi o separador do meu dossier escolar. Feito com duas canetas BIC — uma preta e outra vermelha. Materiais modestos, como tudo era na altura. Mas o que ali está… não é modesto. É um grito disfarçado. Chamei-lhe Liberdade . O desenho mostra um cavalo — ou o que podia ser um — numa paisagem estranha. Frente a frente com uma árvore seca, retorcida, quase hostil. O sol está ao fundo, mas não aquece. Está preso entre linhas duras, como grades. E o cavalo… inclina o pescoço. Toca na árvore. Ou desafia-a. Fiz este desenho em silêncio. Num tempo em que os desenhos também podiam ser perigosos. Em França, o Maio de 68 explodia com protestos, barricadas, poesia nas paredes. Por cá, bastava um risco fora do traçado — e arriscavas uma visita que não pediste. Não sei se, aos o...
  O Pequeno Guerreiro Naquele tempo, em África, onde vivia, não havia lojas de brinquedos. Os pais improvisavam presentes de aniversário e de Natal para os filhos e para os filhos dos amigos. Um dia, deram-lhe um abre-cartas. Era uma pequena réplica de uma espada moura, com cerca de um palmo de comprimento. Foi então que, numa das sessões de cinema, ele viu um filme de Sandokan ou de algum outro herói destemido que, com suas espadas, realizava feitos inacreditáveis e até cortava a cabeça dos inimigos. Para o menino, aquilo foi o suficiente. No jardim da casa, os altos cactos transformaram-se em guerreiros perigosos. A pequena lâmina tornou-se uma espada poderosa. E ele, o pequeno guerreiro, travou uma batalha feroz. Com golpes certeiros e destemidos, venceu todos os seus inimigos. Quando a poeira assentou, restavam apenas os cactos decepados no chão. Quando o pai chegou e viu o cenário de destruição, não houve reconhecimento pela c...
  Num domingo do século passado, na varanda da minha casa em Angola, deu-se à manivela da grafonola,   para se ouvir um disco, que fazia parte de uma coletânea do folclore Angolano. O pessoal foi-se juntando ordeiramente, nos muros de pedra, sempre com o cuidado de não pisar a relva, para ouvir aquela música. Era música da terra deles, onde foram Contratados para trabalhar noutra terra. Hoje entendo que a sensação deve ter sido a mesma do Português que ouviu cantar o Fado em Paris
  Era uma vez, na Lunda... Ah, meu caro, que me traz à memória os tempos em que a vida se desenrolava num compasso lento, como um rio que serpenteia a savana. Recordo a véspera da minha entrada na escola primária, um marco na vida de qualquer petiz. Vivíamos no Fucaúma, um lugar onde a Casa do Pessoal se erguia como um farol na vastidão, mas onde a escola primária e o cinema eram miragens distantes, acessíveis apenas após uma penosa viagem de 60 km até Cassanguidi, por uma estrada de terra batida que punha à prova a paciência de qualquer santo. No entanto, a vida não era desprovida de sons e cores. Havia a escola indígena, um lugar onde a tabuada ecoava em coro ao final do dia, um som que nos chegava aos ouvidos como um murmúrio distante. A viagem para a escola era uma aventura em si mesma, a bordo de um jipão Land Rover, conduzido por um homem Quioco de mãos firmes e olhar sereno, de nome Boa Ventura. Diziam que era um mestre na arte da condução, capaz de transformar estradas de t...