O Cigano Desenhava sempre. Era um gesto tão natural como respirar — e talvez mais necessário. Desenhava nos separadores dos cadernos da escola, nas costas das carteiras de fósforos , nas folhas verdes de mata-borrão que cobriam as secretárias no escritório, nas toalhas de papel dos cafés, nos guardanapos amassados pelo tempo e pela pressa. Com um traço ou dois, contava pequenas histórias. Eram cenas silenciosas — às vezes ternas, outras inquietas — onde deixava escorregar sentimentos que não sabiam pedir licença. Uma tarde, estava a tomar café no Bristol, ali mesmo ao lado da Sede do Benfica, na Rua Jardim do Regedor. Desenhava num papel qualquer — não sei o quê, talvez um rosto, talvez um cavalo, talvez só o que me apetecia escapar do dia. Um homem de barbas, com ar de cigano, aproximou-se. — Queres trabalhar par...