O genocídio esquecido da América September 18, 2025 / Leave a comment / Edit Quando a ONU conclui que Israel cometeu genocídio em Gaza, a palavra adquire um peso político que incomoda potências. Mas talvez devêssemos olhar primeiro para a história dos próprios Estados Unidos, país que se apresenta como guardião do direito internacional, mas cuja fundação repousa sobre um genocídio raramente reconhecido: o dos povos indígenas. Massacres e doenças como armas O avanço colonial não foi apenas “conquista do Oeste” — foi também uma campanha de violência sistemática. Massacres como os de Sand Creek (1864) e Wounded Knee (1890) não foram episódios isolados, mas parte de uma lógica de extermínio. A par da violência direta, doenças trazidas da Europa, como a varíola e o sarampo, devastaram populações inteiras. Em alguns casos, há registos de contaminações intencionais, como cobertores infetados entregues a tribos. O “Trilho das Lágrimas” A política oficial de...
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O Padrão Americano: Como pretextos justificam ações mais amplas A política externa dos EUA, em particular durante a administração Trump, demonstrou uma tendência para usar acusações criminais, como as de narcotráfico, como justificação para ações militares e económicas mais amplas. O caso da Venezuela encaixa-se neste padrão, sugerindo que a "luta contra as drogas" pode ser apenas a ponta do icebergue. A Venezuela como estudo de caso O uso da força contra a Venezuela não foi um incidente isolado. Veio na sequência do envio de navios de guerra e milhares de fuzileiros navais para a região, acompanhado do aumento da recompensa pela captura de Nicolás Maduro. Tudo isso faz parte de uma estratégia de pressão total sobre Caracas. A asfixia económica é outro fator evidente. Trump já tinha imposto tarifas pesadas sobre o petróleo venezuelano e retirado a licença da Chevron, visando reduzir as receitas do regime e cortar os seus laços económicos com países como a China. Além di...
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Gaza, Cisjordânia e o Espelho da História Quando a denúncia chega tarde demais e a esperança ainda resiste As palavras recentes de António Guterres — “chega de desculpas, chega de mentiras” — dirigidas a Israel, soaram como um grito tardio. O Secretário-Geral das Nações Unidas reconhece agora o que há muito era visível: a devastação em Gaza deixou de ser apenas uma crise humanitária para se transformar numa mancha moral no nosso tempo. Mas a questão permanece: até que ponto esta denúncia, embora justa, não chega demasiado tarde para as dezenas de milhares de vidas já perdidas? A ofensiva sobre a cidade de Gaza simboliza a espiral sem saída dos palestinianos, empurrados de norte para sul, de Rafah para Deir al-Balah, num ciclo de fuga constante. O enclave está hoje reduzido a ruínas. Se em Gaza o futuro parece ter sido esmagado sob os escombros, na Cisjordânia ainda existe uma margem de esperança — mas também aí o perigo cresce diariamente. Os ataques de colonos, a expansão c...
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Para Além do Óbvio O rio, as margens e a tragédia no Médio Oriente Há frases que nos perseguem, não pelo que explicam, mas pelo que desvendam. Bertolt Brecht escreveu: “Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem.” E desde 7 de outubro de 2023, essa frase tornou-se uma espécie de eco insistente sempre que os olhos pousam sobre o que se passa em Israel e na Palestina. Nesse dia, o mundo estremeceu ao assistir a um ataque brutal do Hamas contra Israel — um ataque inegavelmente terrorista, indiscriminado, dirigido a civis, e cuja violência suscitou condenação internacional quase unânime. Foi um desses momentos em que a história parece suspender o fôlego e nos força a olhar. Mas olhar não é ver. E ver, verdadeiramente, implica olhar para além do óbvio. Sim, o ataque foi um “rio” de violência. Mas que margens o comprimiram até esse ponto? Que tensões, frustrações, injustiças e desesperos se acumularam ao longo das décadas a...
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Auschwitz, Gaza e a Indiferença que Mata Visitar o museu de Auschwitz - mesmo que online - é uma experiência que deixa marcas profundas. As imagens, os objetos, os testemunhos, tornam palpável o horror que ali se viveu. Mas mais do que isso: confrontam-nos com uma pergunta inquietante - como foi possível o mundo saber... e nada fazer? Durante a Segunda Guerra Mundial, os Aliados souberam cedo que os judeus estavam a ser perseguidos e deportados. A partir de 1942, surgiram relatos credíveis sobre o extermínio em massa. E no entanto, não bombardearam as linhas férreas que levavam a Auschwitz, nem abriram as fronteiras a quem fugia. As razões foram muitas: prioridades militares, burocracia, ceticismo... e, não raras vezes, indiferença ou até antissemitismo envergonhado. No final, o "Nunca Mais" tornou-se grito e promessa - mas também um alerta para o que pode acontecer quando o silêncio triunfa sobre a consciência. H...
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A Impunidade Israelita Está a Ser Contestada — Mas Chegará a Justiça? por Pedro Baptista (com apoio de Clara) Durante décadas, Israel tem mantido uma posição paradoxal na ordem internacional: um Estado que, embora violando sistematicamente resoluções da ONU, expandindo colonatos ilegais e impondo um cerco devastador sobre Gaza, se manteve acima da lei internacional. Mas hoje, essa impunidade está finalmente a ser desafiada. Em 2024, a relatora especial da ONU para os Direitos Humanos nos Territórios Palestinianos, Francesca Albanese, publicou um relatório devastador: “Anatomia de um genocídio” — um documento juridicamente articulado que sustenta a acusação de genocídio contra a população palestiniana em Gaza, cometido por Israel. Este relatório pode marcar um ponto de viragem. Porquê? Porque dois tribunais internacionais — o Tribunal Penal Internacional (TPI) e o Tribunal Internacional de Justiça (TIJ/CIJ) — estão finalmente a avançar com medidas concretas. === Os poss...
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A História acabará por reconhecer o genocídio em Gaza July 1, 2025 / Leave a comment / Edit A História acabará por reconhecer o genocídio em Gaza Tradução livre de um artigo de Somdeep Sen, publicado na Al Jazeera A História ensina-nos que os genocídios só raramente são reconhecidos enquanto estão a acontecer. Foi assim com os Herero, os Nama, o genocídio do Ruanda e até o Holocausto. No presente, Gaza parece seguir o mesmo caminho. A destruição sistemática de vidas, casas, hospitais e redes de sobrevivência palestinianas é acompanhada de discursos que desumanizam toda uma população. Apesar da documentação abundante e das denúncias de várias organizações internacionais, os líderes mundiais hesitam em chamar-lhe “genocídio”. A razão é simples: política e alianças estratégicas. Mas, como noutras tragédias históricas, a verdade virá ao de cima — mesmo que demasiado tarde para os que hoje vivem (e morrem) sob as bombas. 👉 Artigo original: Al Ja z...
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🧭 2% que Vetam o Mundo: A Influência da Comunidade Judaico-Americana na Política Externa dos EUA Pedro Baptista Julho de 2025 Embora represente apenas cerca de 2% da população americana , a comunidade judaico-americana tem desempenhado um papel crucial na formação da política externa dos Estados Unidos, especialmente na defesa sistemática de Israel em foros internacionais , mesmo quando essa defesa implica o uso do veto no Conselho de Segurança da ONU contra resoluções condenatórias amplamente apoiadas pela comunidade internacional . 🏛️ 1. O Poder dos Lobbies: AIPAC e Além Organizações como a AIPAC (American Israel Public Affairs Committee) têm uma capacidade sem paralelo de influenciar decisores políticos: Financiamento e aval político a candidatos pró-Israel; Campanhas de pressão coordenadas no Congresso; Relações estreitas com administrações de ambos os partidos. Este lobby profissionalizado não representa toda a diversidade da comunidade judaica america...
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Da Semente ao Abismo: Lições de Israel para o Presente Português Quando os discursos de ódio deixam de ser marginalizados e passam a ser legitimados nas urnas, abre-se caminho a uma transformação profunda - e perigosa - na sociedade. Este artigo traça um paralelo entre os primeiros sinais de violência de extrema-direita em Portugal e o percurso de radicalização vivido por Israel desde o assassinato de Yitzhak Rabin. Um alerta firme e urgente para quem ainda acredita na democracia como espaço de empatia, justiça e contenção. A história ensina, mas só a quem quer escutar. O que se passa hoje em Portugal - com a ascensão eleitoral da extrema-direita e os primeiros sinais de violência social legitimada por discursos de ódio - não é um fenómeno isolado nem inédito. É, antes, o prenúncio de algo maior e mais perigoso, que outros países já viveram e que deixou marcas profundas. Israel é um desses exemplos. O começo parece sempre "apenas" retórico Em Portugal, multiplicam-se o...
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Irão: O Regime, o Átomo e o Futuro em Aberto Ao abordarmos o complexo dossiê nuclear iraniano, é crucial resistirmos à tentação das simplificações ideológicas . Criticar a retirada dos EUA do JCPOA (o acordo nuclear) não é, de todo, sinónimo de defender o regime iraniano. Pelo contrário, é perfeitamente possível — e, na verdade, necessário — separar a análise estratégica da avaliação moral ou política de um regime que continua a merecer sérias críticas , tanto a nível interno quanto internacional. Um Regime Teocrático Sob Pressão Crescente O Irão é, por definição, uma república teocrática onde o poder último não reside num presidente eleito, mas sim no Líder Supremo . A repressão contra dissidentes, mulheres, artistas, jornalistas e minorias religiosas tem-se intensificado dramaticamente nos últimos anos. Os protestos em massa que eclodiram após a morte de Mahsa Amini, em 2022, foram apenas o sintoma mais visível de uma sociedade que se mostra cada vez mais cansada de ser ...
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O Dia em que o Japão Descobriu a Espingarda… e a Tempura Em 1543, três portugueses desembarcaram por acaso numa pequena ilha japonesa chamada Tanegashima . Não traziam ouro, nem evangelhos — traziam algo mais barulhento: espingardas de mecha. Para os japoneses, foi uma revelação. Rapidamente estudaram, desmontaram e replicaram aquelas armas com a precisão artesanal que os caracteriza. Num só ano, já havia ferreiros japoneses a fabricar espingardas em série. Pouco depois, integraram-nas nas suas batalhas, alterando para sempre o equilíbrio de forças no Japão feudal. 🎌 Teppo Matsuri: quando a espingarda se tornou tradição Todos os anos, a ilha de Tanegashima celebra o Festival Teppo (Teppo Matsuri) — uma homenagem histórica à chegada dos portugueses e à introdução da espingarda. Há desfiles com trajes do século XVI, encenações da chegada dos navegadores, e demonstrações reais com espingardas de mecha — cópias fiéis das originais. Mais do que uma exibição milita...
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Yitzhak Rabin: O Homem Que Assinou a Paz e Morreu com um Tiro nas Costas Houve um tempo em que a palavra paz foi assinada em frente às câmaras. De fato escuro, mão firme, sorriso contido, Yitzhak Rabin apertou a mão de Yasser Arafat. Na Casa Branca. Diante do mundo. Foi em 1993. E nesse gesto — simples, breve, histórico — parecia que o impossível podia acontecer. Mas Rabin pagou caro por acreditar. Do outro lado da linha de frente não estavam só os inimigos árabes. Estavam também os inimigos de dentro . A extrema-direita israelita, os colonos radicais, os religiosos ultranacionalistas. Para eles, ceder território era traição. Reconhecer os palestinianos era blasfémia. Falar de dois Estados era ameaçar a “Terra Prometida”. Foi um deles, Yigal Amir , que o matou. Um estudante judeu ortodoxo, convencido de que Rabin era um traidor. Três tiros. No dia 4 de novembro de 1995. No coração de Telavive, após um comício pela paz. O tiro não matou só o homem. Matou o...
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Macau: Uma Presença Portuguesa, Mas Nunca uma Colónia Muito se diz que Macau foi “uma colónia portuguesa na China” durante mais de quatro séculos. Mas a verdade histórica é bem mais subtil e interessante: Macau nunca foi, formalmente, uma colónia de Portugal . 🧭 Como tudo começou Em 1557 , os navegadores e comerciantes portugueses, já bem estabelecidos no comércio asiático, conseguiram autorização das autoridades chinesas da província de Cantão para se fixarem em Macau. O objectivo? Intermediar o comércio entre a China, o Japão, a Índia e a Europa , numa época em que os chineses proibiam, com raras exceções, o contacto directo com estrangeiros. Não houve conquista. Não houve ocupação militar. Houve negociação, pragmatismo e interesse mútuo . 📜 O acordo: um arrendamento, não uma cessão Os portugueses pagavam um foro anual à China para permanecerem em Macau. A administração local era portuguesa, mas sob vigilância e com respeito pelas leis e costumes chineses. O Imp...