Auschwitz, Gaza e a Indiferença que Mata Visitar o museu de Auschwitz - mesmo que online - é uma experiência que deixa marcas profundas. 

 As imagens, os objetos, os testemunhos, tornam palpável o horror que ali se viveu.

 Mas mais do que isso: confrontam-nos com uma pergunta inquietante - como foi possível o mundo saber... e nada fazer?

 Durante a Segunda Guerra Mundial, os Aliados souberam cedo que os judeus estavam a ser perseguidos e deportados.

 A partir de 1942, surgiram relatos credíveis sobre o extermínio em massa.

 E no entanto, não bombardearam as linhas férreas que levavam a Auschwitz, nem abriram as fronteiras a quem fugia.

 As razões foram muitas: prioridades militares, burocracia, ceticismo... e, não raras vezes, indiferença ou até antissemitismo envergonhado.

 No final, o "Nunca Mais" tornou-se grito e promessa - mas também um alerta para o que pode acontecer quando o silêncio triunfa sobre a consciência.

 Hoje, em Gaza, a história não se repete na forma, mas rima no conteúdo. 

 Não estamos perante um campo de extermínio, mas milhares de civis morreram sob bombardeamentos indiscriminados, a ajuda humanitária é bloqueada, e uma população inteira é punida colectivamente por crimes de que não é responsável.

 Sabemos tudo em tempo real. Temos vídeos, satélites, relatórios da ONU. E, no entanto, o mundo demora a agir com firmeza, preso entre interesses estratégicos, alianças diplomáticas e o medo de tomar posição. 

 Tal como então, o sofrimento prolonga-se com o mundo a assistir.

 Tal como então, o que mais dói não é só a violência, mas a impunidade e a passividade global.

 Auschwitz não começou com câmaras de gás. Começou com discursos de ódio, com desumanização, com a ideia de que uns valem menos do que outros.

 Gaza também começou com muros, bloqueios, discriminação.

 O que começou como conflito político tornou-se catástrofe humana. 

E o que é inaceitável é que a indiferença volte a ser cúmplice. 

 Se a memória do Holocausto serve para alguma coisa, é para nos ensinar que saber e não agir é uma forma de consentimento.

 Que a vida humana, seja ela qual for, tem de estar acima de geopolíticas e silêncios diplomáticos.

 Que "Nunca Mais" não pode ser apenas uma frase de museu- tem de ser uma exigência activa, viva, incómoda.

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