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A mostrar mensagens de agosto, 2025
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  Gaza, Cisjordânia e o Espelho da História Quando a denúncia chega tarde demais e a esperança ainda resiste As palavras recentes de António Guterres — “chega de desculpas, chega de mentiras” — dirigidas a Israel, soaram como um grito tardio. O Secretário-Geral das Nações Unidas reconhece agora o que há muito era visível: a devastação em Gaza deixou de ser apenas uma crise humanitária para se transformar numa mancha moral no nosso tempo. Mas a questão permanece: até que ponto esta denúncia, embora justa, não chega demasiado tarde para as dezenas de milhares de vidas já perdidas? A ofensiva sobre a cidade de Gaza simboliza a espiral sem saída dos palestinianos, empurrados de norte para sul, de Rafah para Deir al-Balah, num ciclo de fuga constante. O enclave está hoje reduzido a ruínas. Se em Gaza o futuro parece ter sido esmagado sob os escombros, na Cisjordânia ainda existe uma margem de esperança — mas também aí o perigo cresce diariamente. Os ataques de colonos, a expansão c...
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  Trump: o segundo mandato e a realidade nua O segundo mandato de Donald Trump mostrou, de forma clara, a distância entre promessas eleitorais e resultados concretos. O balanço é inequívoco: impacto maioritariamente negativo em quase todas as áreas de governação. Na economia , a “prosperidade” prometida acabou em abrandamento, inflação e tarifas que prejudicaram mais consumidores e pequenas empresas do que beneficiaram a indústria. O discurso de crescimento não resistiu à realidade dos números. Na política interna , Trump governou para a sua base e contra todos os outros. Resultado: um país mais polarizado, instituições em permanente confronto e erosão da confiança democrática. As vitórias políticas foram, na maioria, simbólicas e alimentadas pela retórica, não pela substância. Na arena internacional , o efeito foi ainda mais corrosivo. Aliados afastaram-se, rivais ganharam espaço e a credibilidade dos EUA caiu para mínimos históricos. O “America First” acabou por significar “...
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  Quando a verdade morre com os jornalistas Desde outubro de 2023, mais de duzentos jornalistas perderam a vida em Gaza. Nunca, em nenhum conflito recente, se assistiu a um número tão devastador de profissionais da imprensa mortos. O Comité para a Proteção dos Jornalistas chama-lhe “um recorde trágico”. A ONU fala em “um padrão alarmante”. Israel insiste que não tem como alvo jornalistas. Mas a pergunta permanece: porque é que quase todos os mortos são palestinianos e porque é que não há responsabilização? A impunidade como regra Não basta dizer que “a guerra é perigosa” ou que “os jornalistas estavam no terreno errado à hora errada”. Isso seria uma desculpa fácil. A verdade é que a morte de jornalistas em Gaza segue um padrão: ocorrem em locais onde estão claramente identificados, repetem-se em ataques sucessivos e nunca resultam em investigações transparentes com consequências judiciais. O caso de Shireen Abu Akleh , abatida em 2022, continua a simbolizar essa falha. Israel...
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  O PESO VAZIO DO 'NUNCA MAIS' É fácil encontrar quem grite “Nunca Mais”. A frase ecoa bem em cerimónias oficiais, em discursos de Estado e em textos que se pretendem moralmente elevados. Mas, na maioria das vezes, “Nunca Mais” não significa compromisso preventivo. Significa apenas que algo já aconteceu, perante a inação ou cumplicidade de quem podia agir, e que a consciência coletiva precisa agora de uma fórmula para tentar expiar a culpa. Em Gaza, a fome só pôde ser chamada “fome” depois de preencher os requisitos semânticos impostos pela comunidade internacional. Até lá, apesar das crianças subnutridas e das mortes já visíveis, falava-se em “insegurança alimentar severa”. O horror real teve de esperar pela chancela burocrática para ser reconhecido. É um paradoxo cruel: a catástrofe só passa a existir oficialmente quando já matou o suficiente para ser inegável. No Sudão do Sul, em 2017, a fome foi declarada e a ajuda chegou, de forma precária, bloqueada muitas vezes pe...
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  A Fome e a Cumplicidade A palavra “fome” tem um peso que nenhuma estatística consegue suavizar. Não é apenas um número em relatórios, não é uma abstração política. É o corpo que definha, é a criança que chora sem voz, é o adulto que perde a dignidade mais elementar: a de poder alimentar-se. Quando o IPC , organismo apoiado pela ONU, declarou oficialmente que Gaza vive em fome, a comunidade internacional deixou de poder fingir que se tratava apenas de uma crise humanitária grave. Não: é uma catástrofe fabricada . Israel, potência ocupante, tem a obrigação legal e moral de permitir a entrada de alimentos e medicamentos. Não o fez. E ao não o fazer, abre-se a acusação de que a fome não é um acidente da guerra, mas uma arma de guerra. É uma linha vermelha que separa a brutalidade do genocídio. Mas há outra pergunta, mais incómoda: e os Estados que apoiam Israel? Podem continuar a escudar-se na neutralidade, como se fossem meros observadores? A resposta é cada vez mais difícil de...
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Opinião | O apoio que sustenta a guerra A guerra em Gaza não é apenas uma decisão de Israel. É também o resultado direto do apoio constante que os Estados Unidos fornecem. Armas, financiamento e proteção diplomática criam as condições para que o conflito se prolongue sem fim à vista. É verdade que Israel executa a ofensiva, mas não o faria sozinho. A dependência é total: sem Washington, a máquina militar israelita pararia em poucos dias. Este facto simples coloca os EUA no centro da responsabilidade. Não basta olhar para quem dispara. É preciso reconhecer também quem garante que nunca faltem munições. Essa cumplicidade não se mede apenas em números ou contratos, mas no peso das vidas destruídas. A História acabará por fazer a pergunta essencial: quem matou — e quem tornou possível matar?
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  A Dupla Moral da Política Externa dos Estados Unidos Oposição ao Tribunal Penal Internacional (TPI) Ação: Os EUA impuseram sanções a juízes e procuradores do TPI. Justificação: Defender a soberania dos EUA e dos seus aliados (neste caso, Israel), e evitar que cidadãos americanos sejam sujeitos à jurisdição de uma instituição que não reconhecem. Padrão de ingerência: Judicial, através de coerção e pressão política, para proteger interesses geopolíticos. Cooperação com o Sistema Jurídico Brasileiro Ação: Os EUA mantêm acordos de cooperação, mas também usam a sua influência (ameaças de sanções ou revogação de vistos) para pressionar o sistema judicial brasileiro. Justificação: Promover a "democracia" e combater a "corrupção", alinhando resultados com os seus objetivos de política externa. Padrão de ingerência: Político e judicial, disfarçado de cooperação ou de "defesa de valores", mas que serve interesses americanos. Interesse na Groenlând...
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  O excesso de diversidade e a perda de enredo Nas últimas décadas, as séries televisivas mudaram profundamente. Se antes o enredo era o centro das atenções, hoje é frequente assistir-se a uma ênfase crescente na diversidade das personagens. Em muitos casos, essa diversidade é bem-vinda: aproxima a ficção da realidade, amplia o leque de representações e combate estereótipos. O problema surge quando a inclusão deixa de ser orgânica e passa a soar a obrigação de guião . Um exemplo comum é a personagem que surge apenas uma vez para dizer uma frase reveladora da sua orientação sexual, desaparecendo logo de seguida. Outro é o elenco em que cada figura parece escolhida para representar uma minoria diferente, criando um microcosmo artificial que pouco se assemelha ao mundo real. Quando isto acontece, o espectador sente-se manipulado. A narrativa perde força, porque a atenção já não está no mistério, no drama ou na evolução das personagens, mas antes na mensagem que os autores pretende...
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  EUA vs. Tribunal Penal Internacional: Justiça ou Poder? Os Estados Unidos voltaram a confrontar o Tribunal Penal Internacional (CPI), impondo sanções a juízes e procuradores que investigam possíveis crimes cometidos por norte-americanos e israelitas. Não se trata de um episódio isolado: desde 2002, Washington recusou-se a ratificar o Estatuto de Roma, alegando riscos para a sua soberania, mas agora avança para uma ofensiva aberta que fragiliza a justiça internacional. A reação mundial foi imediata: a União Europeia, França e Reino Unido manifestaram apoio ao tribunal, denunciando a tentativa de intimidação. Organizações de direitos humanos alertam que tais ataques corroem o princípio de que crimes de guerra não devem ficar impunes. O padrão repete-se noutras geografias: os EUA rejeitam a jurisdição do CPI em nome da sua soberania, mas não hesitam em intervir noutros países, como aconteceu no Brasil, em disputas judiciais sobre taxas alfandegárias. É a mesma lógica: defender a ...
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  Do Refúgio ao Desenraizamento: Uganda 1903 vs. Gaza Hoje Ao longo da história, surgiram propostas de deslocamento de populações em contextos muito distintos. A comparação entre o Plano do Uganda e a proposta atual para Gaza revela diferenças fundamentais no que toca à legitimidade, ao contexto histórico e ao respeito pelo direito internacional. Contextos e Motivações Plano do Uganda (1903): Foi uma iniciativa dirigida a um movimento político — o sionismo — que representava um povo disperso, sem território soberano. A oferta de terras no então protetorado britânico do Quénia era vista como um “plano B” para um povo perseguido que procurava segurança. Tratava-se de criar um novo assentamento, não de expulsar uma população existente. A decisão de aceitar ou não cabia aos líderes sionistas. Proposta para Gaza (atual): Aqui, a situação é radicalmente diferente. A Faixa de Gaza é um território definido, onde vivem mais de dois milhões de pessoas, a maioria já descendente dos r...
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  O paradoxo económico dos incêndios em Portugal A floresta continua a ser tratada como um problema sazonal, quando deveria ser vista como um ativo estratégico nacional. Enquanto persistirmos na lógica do combate, o país continuará refém de um ciclo de destruição e reconstrução. Todos os verões, o país assiste ao mesmo drama: milhares de hectares de floresta consumidos pelas chamas, populações em risco, património natural e humano devastado. Apesar dos avanços no combate, Portugal continua a enfrentar incêndios de grandes dimensões com uma frequência alarmante. O problema não é apenas climático ou acidental: é estrutural. O abandono rural, consequência direta do êxodo populacional para as cidades, deixou vastas áreas agrícolas e florestais sem manutenção. A fragmentação da propriedade, com milhares de pequenos donos sem meios para gerir o território, agrava a situação. Resultado: um país coberto de combustível pronto a arder. Antes da década de 50 do século passado, quando a lig...
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  Entre a Ucrânia e Gaza: a balança desigual da justiça A forma como o mundo aborda a guerra e a verdade exige uma reflexão séria. As recentes declarações de Vladimir Putin sobre as supostas origens do conflito na Ucrânia ilustram como a narrativa pode ser distorcida para justificar o injustificável. Ao invocar a NATO, o Maidan, perseguições à população russa e até o Batalhão Azov, Putin constrói uma teia de meias-verdades. Embora existam fragmentos de realidade nas suas palavras, a ideia de genocídio ou de perseguição sistemática não encontra suporte em relatórios credíveis de organizações internacionais. É um discurso ao serviço da propaganda, não da verdade. Ainda assim, mais revelador do que a retórica russa é a forma desigual como a comunidade internacional reage a diferentes guerras. No caso da Ucrânia, a invasão é corretamente classificada como violação da soberania de um Estado e deu origem a uma resposta coordenada, com sanções duras e abrangentes. Já em Gaza, a destruiç...
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  Reconhecer a Palestina e armar Israel: a contradição que alimenta a impunidade Nos últimos meses, vários governos europeus anunciaram a intenção de reconhecer formalmente o Estado da Palestina . Para muitos cidadãos, esse gesto é visto como um passo importante na defesa da justiça e da paz no Médio Oriente. Contudo, essa decisão política esbarra numa contradição gritante: os mesmos países que falam em “dois Estados” continuam a fornecer, de forma direta ou indireta, armas e componentes a Israel . A situação é paradoxal. Como pode um Estado reconhecer a Palestina ao mesmo tempo que ajuda a destruir o seu território e a sua população? Ao fornecer armas a Israel, esses países não estão a proteger a viabilidade de uma Palestina independente — estão, pelo contrário, a minar as condições mínimas para a sua existência. O caso da Alemanha é exemplar. Berlim anunciou restrições, mas aumentou exponencialmente as exportações militares para Israel após 7 de outubro de 2023. A Itália de...
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  A Sede como Arma de Guerra: A Vergonha da Impotência Internacional "A comunidade internacional reconhece o uso da água como arma, mas as ações concretas para travar esta prática têm sido insuficientes." Esta frase resume, na sua dura realidade, a hipocrisia e a paralisia do mundo perante um crime em curso: a utilização deliberada da sede como arma de guerra contra a população de Gaza. Não estamos perante uma mera consequência colateral de um conflito, mas sim diante de uma estratégia consciente e sistemática. Esta tese tem sido denunciada por organizações humanitárias como a Oxfam, a Human Rights Watch e a Amnistia Internacional, e confirmada pelos relatores da ONU. A privação deliberada de água potável não é apenas uma violação grave do direito internacional humanitário — é um crime de guerra e, nas circunstâncias atuais, pode ser considerado um crime contra a humanidade. O Reconhecimento Sem Ação: A Cumplicidade por Omissão A comunidade internacional está a par da situaçã...
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  A Falsificação da “Mensagem do Telegram” August 12, 2025  /  Pedro Baptista   /  Edit A mentira que mata duas vezes Há crimes que não se limitam a tirar vidas — também tentam assassinar a verdade. O caso de Anas Al-Sharif é disso exemplo. O jornalista palestiniano, conhecido pelo seu trabalho em Gaza, foi alvo de uma das mais cínicas e repugnantes formas de violência: a falsificação das suas palavras para justificar a sua morte. Nos dias que se seguiram ao ataque que vitimou Al-Sharif, começou a circular uma imagem de alegada publicação no seu canal de Telegram. Na mensagem, datada de 7 de outubro de 2023, ele supostamente glorificaria ataques contra israelitas, descrevendo os agressores como “heróis” e elogiando Deus pelo massacre. O conteúdo é chocante — e era precisamente essa a intenção de quem o fabricou. A análise atenta revela incoerências óbvias: erros de formatação que não existem no Telegram, ausência dessa mensagem no arquivo real do canal, e o...
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  1. Ações anunciadas por Trump O Presidente Trump declarou uma emergência de segurança pública e invocou a Secção 740 da Lei de Autonomia do Distrito de 1973, reapropriando temporariamente a polícia metropolitana de D.C. para controlo federal, com duração de 48 horas, podendo chegar a 30 dias com notificação ao Congresso NBC4 Washington The Guardian+1 . Foi anunciada a mobilização de tropas da Guarda Nacional — com cerca de 800 efectivos iniciando a ação NBC4 Washington Reuters The Guardian . Trump também ordenou a remoção imediata de pessoas em situação de sem-abrigo da cidade, com promessas vagas de realojamento "longe da capital", ao mesmo tempo em que anunciou medidas para encarcerar criminosos ABC News Reuters The Guardian . 2. Dados oficiais sobre a criminalidade em D.C. Os dados da Polícia Metropolitana revelam que, até 11 de agosto de 2025, os crimes violentos caíram 26 % , e todos os crimes caíram 7 % em relação a 2024 Reuters mpd...
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  Quando o Silêncio Mata Duas Vezes: A Morte da Informação em Gaza O ataque que vitimou cinco jornalistas da Al Jazeera em Gaza, incluindo o conceituado repórter Anas al-Sharif, foi mais do que um trágico episódio de guerra. Foi um golpe direto e deliberado à liberdade de imprensa e, por extensão, ao direito fundamental do mundo a conhecer a verdade, livre de filtros governamentais, militares ou de agendas políticas. A narrativa oficial israelita, que rotulou um dos jornalistas de "militante do Hamas", é contestada veementemente pela Al Jazeera e por organizações como o Committee to Protect Journalists, que exigem provas que, até hoje, não foram apresentadas. Este padrão é perigoso e profundamente corrosivo para qualquer democracia. O uso do rótulo de "combatente" como justificação para assassinar jornalistas é uma manobra antiga, utilizada para silenciar a reportagem no terreno e escamotear a realidade de um conflito. Em Portugal, a cobertura mediática sobre es...
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  Imigração em Portugal: Entre o discurso político e a realidade dos números Nos últimos dias, o deputado Francisco Gomes, eleito pelo CHEGA, fez declarações incisivas sobre o impacto da imigração em Portugal. Num comunicado público, responsabilizou a “imigração descontrolada” pela alegada degradação do nível de vida no país e pelo “colapso dos serviços públicos”. Mais ainda, afirmou que “a maioria dos imigrantes não contribui para a economia, mas vive de subsídios” e que apenas cerca de “300 mil imigrantes contribuem para a Segurança Social”, num universo de “perto de dois milhões” de residentes estrangeiros. Estas declarações surgem na sequência da divulgação de um estudo do Gabinete de Estudos Económicos, Empresariais e de Políticas Públicas (G3E2P) da Faculdade de Economia do Porto , que indica que o PIB per capita à paridade do poder de compra está ligeiramente sobrestimado, porque não contabiliza toda a população estrangeira residente. De facto, o estudo aponta que, com o...
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  O Presidente Vai Nu (Inspirado em “A Roupa Nova do Rei”, de Hans Christian Andersen) Era uma vez um presidente muito vaidoso chamado Donald . Tão vaidoso, que não se importava com livros, ciência ou arte — apenas com o seu reflexo nos espelhos, os elogios dos seus seguidores e a cor do seu bronzeado. Vivia numa torre dourada e tinha fatos azuis, vermelhos, brancos, com gravatas compridas até aos joelhos. Mas nunca era suficiente. Queria ser visto como o melhor presidente de todos os tempos , mesmo quando dizia disparates ou inventava coisas que nunca tinham acontecido. Um dia, apareceram dois "estilistas" muito espertos — uns tipos vindos da televisão e das redes sociais — que lhe disseram: — Senhor Presidente, podemos fazer-lhe um fato invisível especial . Só os verdadeiros patriotas, inteligentes e fiéis a si é que o conseguem ver. Todos os outros — jornalistas, cientistas, professores, democratas e leitores de jornais — não verão nada. Donald adorou a ideia. “É g...