Quando a verdade morre com os jornalistas


Desde outubro de 2023, mais de duzentos jornalistas perderam a vida em Gaza. Nunca, em nenhum conflito recente, se assistiu a um número tão devastador de profissionais da imprensa mortos. O Comité para a Proteção dos Jornalistas chama-lhe “um recorde trágico”. A ONU fala em “um padrão alarmante”. Israel insiste que não tem como alvo jornalistas. Mas a pergunta permanece: porque é que quase todos os mortos são palestinianos e porque é que não há responsabilização?


A impunidade como regra

Não basta dizer que “a guerra é perigosa” ou que “os jornalistas estavam no terreno errado à hora errada”. Isso seria uma desculpa fácil. A verdade é que a morte de jornalistas em Gaza segue um padrão: ocorrem em locais onde estão claramente identificados, repetem-se em ataques sucessivos e nunca resultam em investigações transparentes com consequências judiciais.

O caso de Shireen Abu Akleh, abatida em 2022, continua a simbolizar essa falha. Israel reconheceu a “probabilidade alta” de ter sido atingida por fogo das suas forças, mas o processo acabou em nada. Nenhum responsável foi julgado. E essa ausência de justiça repete-se, caso após caso, até hoje.


Jornalistas não são alvos militares

O direito internacional humanitário é claro: jornalistas em zonas de conflito são civis e devem ser protegidos. A sua missão é informar, não combater. Quando centenas deles morrem quase todos do mesmo lado da linha de fogo, não estamos perante tragédias isoladas. Estamos perante uma erosão sistemática da proteção de civis.

Israel alega por vezes que certos jornalistas mortos também colaboravam com grupos armados. Mesmo que isso fosse verdade em casos pontuais, nunca explicaria a escala da carnificina. Mais grave ainda: essas alegações surgem quase sempre depois da morte, sem provas verificáveis, como se fossem justificações retroativas para o injustificável.


A responsabilidade que ninguém quer assumir

A responsabilidade não é apenas de Israel. A comunidade internacional limita-se a declarações de preocupação, incapaz — ou sem vontade — de exigir investigações sérias e independentes. Os aliados mais próximos de Telavive, que poderiam pressionar por responsabilização, optam pelo silêncio ou por frases vagas.

E assim, a impunidade instala-se. Cada jornalista morto sem justiça não é apenas uma vida perdida. É também uma verdade silenciada, uma reportagem que nunca será escrita, um testemunho arrancado da história.


Porque é que isto nos deve preocupar

A morte em massa de jornalistas em Gaza não é apenas um problema local ou palestiniano. É uma ameaça global à liberdade de imprensa e ao direito de todos nós a sermos informados. Se um repórter identificado pode ser abatido sem consequências, o que impede que amanhã aconteça o mesmo noutros conflitos, noutras geografias?

O silêncio da impunidade é cúmplice. E enquanto esse silêncio persistir, a verdade continuará a morrer junto com os jornalistas que ousam contá-la.

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