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O Padrão Americano: Como pretextos justificam ações mais amplas A política externa dos EUA, em particular durante a administração Trump, demonstrou uma tendência para usar acusações criminais, como as de narcotráfico, como justificação para ações militares e económicas mais amplas. O caso da Venezuela encaixa-se neste padrão, sugerindo que a "luta contra as drogas" pode ser apenas a ponta do icebergue. A Venezuela como estudo de caso O uso da força contra a Venezuela não foi um incidente isolado. Veio na sequência do envio de navios de guerra e milhares de fuzileiros navais para a região, acompanhado do aumento da recompensa pela captura de Nicolás Maduro. Tudo isso faz parte de uma estratégia de pressão total sobre Caracas. A asfixia económica é outro fator evidente. Trump já tinha imposto tarifas pesadas sobre o petróleo venezuelano e retirado a licença da Chevron, visando reduzir as receitas do regime e cortar os seus laços económicos com países como a China. Além di...
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  Gaza e o mapa global da fome: um silêncio cúmplice A fome em Gaza, classificada já na Fase 5 da escala IPC — Catástrofe/Fome — é o retrato mais extremo de um problema que atravessa fronteiras e que deveria envergonhar a humanidade. Mas Gaza não é um caso isolado. O cerco e a destruição sistemática de uma população inteira revelam a utilização da fome como arma política e militar. E, se aqui o crime se expõe com nitidez, não deixa de ecoar noutras geografias. O Sudão e o Sudão do Sul enfrentam guerras civis que desestruturam qualquer hipótese de vida digna, deixando milhões de pessoas à mercê da fome. No Iémen, uma guerra esquecida consome uma população inteira, destruindo infraestruturas e condenando crianças e famílias à sobrevivência mínima. Na República Democrática do Congo, décadas de violência alimentam um ciclo de deslocações e insegurança alimentar que atinge, sobretudo, o leste do país. No nordeste da Nigéria, a violência do Boko Haram e a insegurança crónica impedem q...
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  GREAT Trust: Reconstrução ou Limpeza Étnica Disfarçada? Nos últimos dias, veio a público um plano norte-americano para o pós-guerra em Gaza, conhecido como GREAT Trust ( Gaza Reconstitution, Economic Acceleration and Transformation Trust ). O documento, revelado pelo Washington Post e confirmado por várias fontes internacionais, descreve uma proposta de 38 páginas para transformar Gaza em pólo turístico e tecnológico. À primeira vista, soa a promessa de modernidade; ao olhar de perto, levanta sérias acusações de violação dos direitos humanos. As promessas de futuro O plano fala em “cidades inteligentes” com inteligência artificial , fábricas de automóveis elétricos, centros de dados e hotéis. A administração do território ficaria durante dez anos nas mãos deste fundo, antes de ser entregue a uma “entidade palestiniana reformada e desradicalizada”. Os residentes seriam “encorajados” a sair mediante compensações financeiras: 5.000 dólares em dinheiro, quatro anos de renda e ...
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  Netanyahu e o projeto do “Grande Israel” Quando Benjamin Netanyahu declara, em plena entrevista televisiva, que sente uma ligação “muito forte” ao conceito de um “Grande Israel”, não estamos perante um simples desabafo ideológico. Estamos perante a verbalização de um projeto político e territorial que há muito vem sendo aplicado no terreno. A expansão incessante de colonatos na Cisjordânia, a recusa em reconhecer um Estado palestiniano viável, a marginalização sistemática da minoria árabe dentro de Israel e, agora, a ocupação total da Faixa de Gaza: tudo isto não são medidas isoladas. São peças de um plano coerente — “máximo de terra, mínimo de árabes” . O problema não é apenas o que Netanyahu pensa; é o que Netanyahu faz. E o que ele faz tem consequências devastadoras: deslocações em massa, destruição de comunidades, morte de civis, erosão total da possibilidade de paz. Ao reivindicar este expansionismo como uma “missão histórica e espiritual”, o primeiro-ministro israelita c...
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  Quando a verdade morre com os jornalistas Desde outubro de 2023, mais de duzentos jornalistas perderam a vida em Gaza. Nunca, em nenhum conflito recente, se assistiu a um número tão devastador de profissionais da imprensa mortos. O Comité para a Proteção dos Jornalistas chama-lhe “um recorde trágico”. A ONU fala em “um padrão alarmante”. Israel insiste que não tem como alvo jornalistas. Mas a pergunta permanece: porque é que quase todos os mortos são palestinianos e porque é que não há responsabilização? A impunidade como regra Não basta dizer que “a guerra é perigosa” ou que “os jornalistas estavam no terreno errado à hora errada”. Isso seria uma desculpa fácil. A verdade é que a morte de jornalistas em Gaza segue um padrão: ocorrem em locais onde estão claramente identificados, repetem-se em ataques sucessivos e nunca resultam em investigações transparentes com consequências judiciais. O caso de Shireen Abu Akleh , abatida em 2022, continua a simbolizar essa falha. Israel...
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  Entre a Ucrânia e Gaza: a balança desigual da justiça A forma como o mundo aborda a guerra e a verdade exige uma reflexão séria. As recentes declarações de Vladimir Putin sobre as supostas origens do conflito na Ucrânia ilustram como a narrativa pode ser distorcida para justificar o injustificável. Ao invocar a NATO, o Maidan, perseguições à população russa e até o Batalhão Azov, Putin constrói uma teia de meias-verdades. Embora existam fragmentos de realidade nas suas palavras, a ideia de genocídio ou de perseguição sistemática não encontra suporte em relatórios credíveis de organizações internacionais. É um discurso ao serviço da propaganda, não da verdade. Ainda assim, mais revelador do que a retórica russa é a forma desigual como a comunidade internacional reage a diferentes guerras. No caso da Ucrânia, a invasão é corretamente classificada como violação da soberania de um Estado e deu origem a uma resposta coordenada, com sanções duras e abrangentes. Já em Gaza, a destruiç...
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  Reconhecer a Palestina e armar Israel: a contradição que alimenta a impunidade Nos últimos meses, vários governos europeus anunciaram a intenção de reconhecer formalmente o Estado da Palestina . Para muitos cidadãos, esse gesto é visto como um passo importante na defesa da justiça e da paz no Médio Oriente. Contudo, essa decisão política esbarra numa contradição gritante: os mesmos países que falam em “dois Estados” continuam a fornecer, de forma direta ou indireta, armas e componentes a Israel . A situação é paradoxal. Como pode um Estado reconhecer a Palestina ao mesmo tempo que ajuda a destruir o seu território e a sua população? Ao fornecer armas a Israel, esses países não estão a proteger a viabilidade de uma Palestina independente — estão, pelo contrário, a minar as condições mínimas para a sua existência. O caso da Alemanha é exemplar. Berlim anunciou restrições, mas aumentou exponencialmente as exportações militares para Israel após 7 de outubro de 2023. A Itália de...
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  A Sede como Arma de Guerra: A Vergonha da Impotência Internacional "A comunidade internacional reconhece o uso da água como arma, mas as ações concretas para travar esta prática têm sido insuficientes." Esta frase resume, na sua dura realidade, a hipocrisia e a paralisia do mundo perante um crime em curso: a utilização deliberada da sede como arma de guerra contra a população de Gaza. Não estamos perante uma mera consequência colateral de um conflito, mas sim diante de uma estratégia consciente e sistemática. Esta tese tem sido denunciada por organizações humanitárias como a Oxfam, a Human Rights Watch e a Amnistia Internacional, e confirmada pelos relatores da ONU. A privação deliberada de água potável não é apenas uma violação grave do direito internacional humanitário — é um crime de guerra e, nas circunstâncias atuais, pode ser considerado um crime contra a humanidade. O Reconhecimento Sem Ação: A Cumplicidade por Omissão A comunidade internacional está a par da situaçã...
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  Quando o Silêncio Mata Duas Vezes: A Morte da Informação em Gaza O ataque que vitimou cinco jornalistas da Al Jazeera em Gaza, incluindo o conceituado repórter Anas al-Sharif, foi mais do que um trágico episódio de guerra. Foi um golpe direto e deliberado à liberdade de imprensa e, por extensão, ao direito fundamental do mundo a conhecer a verdade, livre de filtros governamentais, militares ou de agendas políticas. A narrativa oficial israelita, que rotulou um dos jornalistas de "militante do Hamas", é contestada veementemente pela Al Jazeera e por organizações como o Committee to Protect Journalists, que exigem provas que, até hoje, não foram apresentadas. Este padrão é perigoso e profundamente corrosivo para qualquer democracia. O uso do rótulo de "combatente" como justificação para assassinar jornalistas é uma manobra antiga, utilizada para silenciar a reportagem no terreno e escamotear a realidade de um conflito. Em Portugal, a cobertura mediática sobre es...
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  Para Além do Óbvio O rio, as margens e a tragédia no Médio Oriente Há frases que nos perseguem, não pelo que explicam, mas pelo que desvendam. Bertolt Brecht escreveu: “Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem.” E desde 7 de outubro de 2023, essa frase tornou-se uma espécie de eco insistente sempre que os olhos pousam sobre o que se passa em Israel e na Palestina. Nesse dia, o mundo estremeceu ao assistir a um ataque brutal do Hamas contra Israel — um ataque inegavelmente terrorista, indiscriminado, dirigido a civis, e cuja violência suscitou condenação internacional quase unânime. Foi um desses momentos em que a história parece suspender o fôlego e nos força a olhar. Mas olhar não é ver. E ver, verdadeiramente, implica olhar para além do óbvio. Sim, o ataque foi um “rio” de violência. Mas que margens o comprimiram até esse ponto? Que tensões, frustrações, injustiças e desesperos se acumularam ao longo das décadas a...
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  Enquanto animais são resgatados com urgência de Gaza e levados para abrigos na Europa, milhares de crianças palestinianas continuam cercadas, famintas e feridas — sem rota de saída nem tratamento. Julho de 2025.  No meio do ruído ensurdecedor da guerra em Gaza, há uma imagem que parece saída de um delírio humanitário: burros transportados para a Europa sob alegado tratamento de “trauma psicológico”, enquanto crianças mutiladas e famintas morrem sem assistência. Esta aparente inversão de prioridades levanta uma questão dolorosa:  o que diz de nós uma guerra em que os animais conseguem escapar, mas as crianças não?   A “operação veterinária” que retirou burros de Gaza Segundo vários relatos fidedignos,  centenas de burros foram removidos por militares israelitas de zonas invadidas na Faixa de Gaza , em articulação com o abrigo israelita  Starting Over Sanctuary  e com apoio de ONG internacionais como a  Network for Animals . As justificações ofici...
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  Denúncia Pública Execução filmada por drone em Gaza configura crime de guerra e exige investigação internacional https://youtube.com/shorts/aBWOeHRjfJA?si=1csVJboILZxWq2bT , Julho de 2025 Por Pedro Baptista Circula nas redes sociais e plataformas de vídeo um vídeo promocional do drone Spike Firefly , produzido pela empresa israelita Rafael Advanced Defense Systems , onde se observa o ataque letal a um indivíduo aparentemente desarmado , numa zona urbana destruída da Faixa de Gaza. O alvo, solitário, caminha numa rua deserta. O drone, controlado remotamente, fixa a vítima, acompanha os seus passos — e executa-a com precisão clínica . O vídeo termina com slogans comerciais e gráficos de desempenho, como se se tratasse de uma demonstração tecnológica isenta de implicações morais ou legais. Esta imagem não é apenas chocante — é incriminatória. Segundo o Direito Internacional Humanitário , em especial as Convenções de Genebra e o Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internaci...
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  Irão: O Regime, o Átomo e o Futuro em Aberto Ao abordarmos o complexo dossiê nuclear iraniano, é crucial resistirmos à tentação das simplificações ideológicas . Criticar a retirada dos EUA do JCPOA (o acordo nuclear) não é, de todo, sinónimo de defender o regime iraniano. Pelo contrário, é perfeitamente possível — e, na verdade, necessário — separar a análise estratégica da avaliação moral ou política de um regime que continua a merecer sérias críticas , tanto a nível interno quanto internacional. Um Regime Teocrático Sob Pressão Crescente O Irão é, por definição, uma república teocrática onde o poder último não reside num presidente eleito, mas sim no Líder Supremo . A repressão contra dissidentes, mulheres, artistas, jornalistas e minorias religiosas tem-se intensificado dramaticamente nos últimos anos. Os protestos em massa que eclodiram após a morte de Mahsa Amini, em 2022, foram apenas o sintoma mais visível de uma sociedade que se mostra cada vez mais cansada de ser ...
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  JCPOA: Uma Retirada que Comprometeu a Segurança Global Quando se avalia uma decisão de política externa, há muitas métricas possíveis: ganhos económicos, alianças estratégicas, fidelidade ideológica ou promessas eleitorais. Mas se isolarmos a segurança global como critério primordial — acima de tudo o resto — então a decisão de Donald Trump de retirar unilateralmente os Estados Unidos do acordo nuclear com o Irão (JCPOA) em 2018 revela-se uma falha política grave , cujos efeitos continuam a comprometer a estabilidade mundial. A Segurança Global como Referência Absoluta Visto sob o prisma exclusivo da segurança internacional, o abandono do JCPOA é quase indefensável. Eis porquê: 1. Proliferação Nuclear Acelerada O Irão, libertando-se das restrições do acordo, acelerou o enriquecimento de urânio e desenvolveu centrífugas mais avançadas. O “tempo de ruptura” — o período necessário para produzir material físsil suficiente para uma arma — diminuiu drasticamente . Ou seja, o...
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  A História Repete-se? Em 2003, o mundo assistiu à invasão do Iraque por uma coligação liderada pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido. A justificação apresentada parecia inquestionável: o regime de Saddam Hussein possuía armas de destruição maciça (ADM) e mantinha ligações perigosas com a Al-Qaeda. Vinte anos depois, sabemos que nenhuma destas alegações resistiu à investigação séria . O chamado Relatório Duelfer , produzido pelo Iraq Survey Group entre 2004 e 2005, concluiu de forma inequívoca: não existiam ADM em 2003 . Saddam tinha, de facto, desmantelado os seus programas militares após a Guerra do Golfo em 1991. A “intenção futura” de os retomar, tantas vezes invocada, não passa disso mesmo — uma intenção sem meios, que em nada justificava uma guerra preventiva. Do mesmo modo, as alegadas ligações entre o regime iraquiano e a Al-Qaeda foram desmentidas por múltiplas fontes , incluindo a Comissão do 11 de Setembro e, anos mais tarde, o próprio Pentágono. Saddam era um di...