GREAT Trust: Reconstrução ou Limpeza Étnica Disfarçada?
Nos últimos dias, veio a público um plano norte-americano para o pós-guerra em Gaza, conhecido como GREAT Trust (Gaza Reconstitution, Economic Acceleration and Transformation Trust). O documento, revelado pelo Washington Post e confirmado por várias fontes internacionais, descreve uma proposta de 38 páginas para transformar Gaza em pólo turístico e tecnológico. À primeira vista, soa a promessa de modernidade; ao olhar de perto, levanta sérias acusações de violação dos direitos humanos.
As promessas de futuro
O plano fala em “cidades inteligentes” com inteligência artificial, fábricas de automóveis elétricos, centros de dados e hotéis. A administração do território ficaria durante dez anos nas mãos deste fundo, antes de ser entregue a uma “entidade palestiniana reformada e desradicalizada”.
Os residentes seriam “encorajados” a sair mediante compensações financeiras: 5.000 dólares em dinheiro, quatro anos de renda e um ano de alimentação. Proprietários de terrenos receberiam “tokens digitais” que poderiam trocar por apartamentos futuristas ou usar para financiar uma nova vida noutro local.
O problema da “voluntariedade”
Numa Gaza devastada por quase dois anos de guerra, onde mais de 60 mil pessoas morreram e a infraestrutura foi praticamente destruída, falar em saída “voluntária” é ilusório. Quando a alternativa é permanecer em ruínas sem água, energia ou comida, a liberdade de escolha deixa de existir. Trata-se, na prática, de transferência forçada de população, algo proibido pelo direito internacional.
Direito internacional e ética
A Quarta Convenção de Genebra proíbe explicitamente a deslocação de populações sob ocupação. Ao tentar mascarar esse processo como reabilitação económica, o plano corre o risco de institucionalizar uma forma de limpeza étnica — apagando a presença palestiniana para abrir espaço a um modelo de negócio altamente lucrativo.
O marketing do progresso
O discurso de inovação tecnológica funciona aqui como cortina de fumo. O que se apresenta como reconstrução é, na realidade, um projeto de apropriação territorial e mercantilização da terra, reduzindo a identidade de um povo a números de investimento e tokens digitais.
Reações internacionais
Países árabes, organizações de direitos humanos e até setores da própria ONU já denunciaram a proposta como um disfarce para expulsão em massa. A extrema-direita israelita, pelo contrário, aplaudiu a ideia, enquanto Washington hesita em comentar oficialmente.
Conclusão
O GREAT Trust não é apenas um plano de reconstrução. É um projeto político e económico que procura transformar Gaza num laboratório de negócios futuristas, à custa da sua população. Entre promessas de modernidade e slogans de desenvolvimento, o que está em causa é o direito dos palestinianos a permanecer na sua terra e a decidir o seu próprio futuro.

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