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  Gaza e o mapa global da fome: um silêncio cúmplice A fome em Gaza, classificada já na Fase 5 da escala IPC — Catástrofe/Fome — é o retrato mais extremo de um problema que atravessa fronteiras e que deveria envergonhar a humanidade. Mas Gaza não é um caso isolado. O cerco e a destruição sistemática de uma população inteira revelam a utilização da fome como arma política e militar. E, se aqui o crime se expõe com nitidez, não deixa de ecoar noutras geografias. O Sudão e o Sudão do Sul enfrentam guerras civis que desestruturam qualquer hipótese de vida digna, deixando milhões de pessoas à mercê da fome. No Iémen, uma guerra esquecida consome uma população inteira, destruindo infraestruturas e condenando crianças e famílias à sobrevivência mínima. Na República Democrática do Congo, décadas de violência alimentam um ciclo de deslocações e insegurança alimentar que atinge, sobretudo, o leste do país. No nordeste da Nigéria, a violência do Boko Haram e a insegurança crónica impedem q...
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  A Global Sumud Flotilla : resistência no mar, silêncio nos palácios A palavra árabe sumud significa “resistência firme” ou “perseverança” — um conceito que os palestinianos adotaram ao longo das décadas para descrever a sua luta pela sobrevivência face à ocupação e ao exílio. Hoje, esse espírito navega sob a forma da Global Sumud Flotilla , uma iniciativa internacional que tenta romper o cerco a Gaza e transportar ajuda humanitária para uma população exausta pela guerra, pela fome e pelo isolamento. As flotilhas não são novidade. Desde 2010, quando a tragédia do Mavi Marmara expôs ao mundo a brutalidade do bloqueio israelita, a sociedade civil internacional tem tentado, por via marítima, afirmar que Gaza não está sozinha. Mas a Global Sumud Flotilla acrescenta algo mais: uma articulação mais ampla, com participantes de várias nacionalidades, ativistas de direitos humanos, figuras religiosas e até parlamentares, que procuram transformar cada viagem não apenas num ato logísti...
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  Gaza, Cisjordânia e o Espelho da História Quando a denúncia chega tarde demais e a esperança ainda resiste As palavras recentes de António Guterres — “chega de desculpas, chega de mentiras” — dirigidas a Israel, soaram como um grito tardio. O Secretário-Geral das Nações Unidas reconhece agora o que há muito era visível: a devastação em Gaza deixou de ser apenas uma crise humanitária para se transformar numa mancha moral no nosso tempo. Mas a questão permanece: até que ponto esta denúncia, embora justa, não chega demasiado tarde para as dezenas de milhares de vidas já perdidas? A ofensiva sobre a cidade de Gaza simboliza a espiral sem saída dos palestinianos, empurrados de norte para sul, de Rafah para Deir al-Balah, num ciclo de fuga constante. O enclave está hoje reduzido a ruínas. Se em Gaza o futuro parece ter sido esmagado sob os escombros, na Cisjordânia ainda existe uma margem de esperança — mas também aí o perigo cresce diariamente. Os ataques de colonos, a expansão c...
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  A Fome e a Cumplicidade A palavra “fome” tem um peso que nenhuma estatística consegue suavizar. Não é apenas um número em relatórios, não é uma abstração política. É o corpo que definha, é a criança que chora sem voz, é o adulto que perde a dignidade mais elementar: a de poder alimentar-se. Quando o IPC , organismo apoiado pela ONU, declarou oficialmente que Gaza vive em fome, a comunidade internacional deixou de poder fingir que se tratava apenas de uma crise humanitária grave. Não: é uma catástrofe fabricada . Israel, potência ocupante, tem a obrigação legal e moral de permitir a entrada de alimentos e medicamentos. Não o fez. E ao não o fazer, abre-se a acusação de que a fome não é um acidente da guerra, mas uma arma de guerra. É uma linha vermelha que separa a brutalidade do genocídio. Mas há outra pergunta, mais incómoda: e os Estados que apoiam Israel? Podem continuar a escudar-se na neutralidade, como se fossem meros observadores? A resposta é cada vez mais difícil de...
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  A Sede como Arma de Guerra: A Vergonha da Impotência Internacional "A comunidade internacional reconhece o uso da água como arma, mas as ações concretas para travar esta prática têm sido insuficientes." Esta frase resume, na sua dura realidade, a hipocrisia e a paralisia do mundo perante um crime em curso: a utilização deliberada da sede como arma de guerra contra a população de Gaza. Não estamos perante uma mera consequência colateral de um conflito, mas sim diante de uma estratégia consciente e sistemática. Esta tese tem sido denunciada por organizações humanitárias como a Oxfam, a Human Rights Watch e a Amnistia Internacional, e confirmada pelos relatores da ONU. A privação deliberada de água potável não é apenas uma violação grave do direito internacional humanitário — é um crime de guerra e, nas circunstâncias atuais, pode ser considerado um crime contra a humanidade. O Reconhecimento Sem Ação: A Cumplicidade por Omissão A comunidade internacional está a par da situaçã...
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  Gaza: A Fome que Não se Quer Nomear A recusa em declarar formalmente a fome em Gaza não é apenas uma falha técnica — é uma escolha política com consequências éticas profundas. A Faixa de Gaza está à beira do colapso total. Milhares de crianças desnutridas, sistemas de saúde destruídos, e bloqueios sistemáticos ao acesso a alimentos e água. As Nações Unidas têm descrito a situação como “catastrófica”. Organizações como a Save the Children , a Oxfam e a ONU Mulheres alertam, de forma repetida, para o risco iminente de fome em larga escala. Mas há uma palavra que continua ausente dos relatórios oficiais das instituições internacionais: fome . O peso de uma palavra Moncef Khane, antigo diplomata das Nações Unidas, formula com clareza a pergunta essencial: “Por que a ONU não está declarando fome em Gaza?” A resposta, segundo ele, é tão política quanto técnica: declarar formalmente a existência de fome (ou famine , no jargão institucional) implicaria obrigações jurídicas e d...