Gaza: A Fome que Não se Quer Nomear


A recusa em declarar formalmente a fome em Gaza não é apenas uma falha técnica — é uma escolha política com consequências éticas profundas.


A Faixa de Gaza está à beira do colapso total. Milhares de crianças desnutridas, sistemas de saúde destruídos, e bloqueios sistemáticos ao acesso a alimentos e água. As Nações Unidas têm descrito a situação como “catastrófica”. Organizações como a Save the Children, a Oxfam e a ONU Mulheres alertam, de forma repetida, para o risco iminente de fome em larga escala.

Mas há uma palavra que continua ausente dos relatórios oficiais das instituições internacionais: fome.

O peso de uma palavra

Moncef Khane, antigo diplomata das Nações Unidas, formula com clareza a pergunta essencial:
“Por que a ONU não está declarando fome em Gaza?”

A resposta, segundo ele, é tão política quanto técnica: declarar formalmente a existência de fome (ou famine, no jargão institucional) implicaria obrigações jurídicas e diplomáticas concretas. Uma tal declaração exigiria respostas internacionais mais incisivas — e colocaria alguns governos sob escrutínio por cumplicidade com um possível crime contra a humanidade.

Khane não poupa palavras:
“Considerações políticas e técnicas não podem mais ser uma desculpa para ignorar a fome dos palestinos.”
Ignorar não é neutralidade. É, no mínimo, omissão. No máximo, conivência.

CPLP: uma réplica do mesmo silêncio

A mesma lógica parece ter-se replicado recentemente na CPLP. Durante a XV Cimeira de Chefes de Estado e de Governo, realizada em Bissau sob o tema da soberania alimentar, uma proposta apresentada pela sociedade civil — que incluía uma referência à situação alimentar em Gaza — foi excluída do texto final do Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional da Comunidade.

Portugal, pela voz do Ministro Paulo Rangel, justificou que esse tipo de referência “não se enquadra” nas declarações setoriais, reservando os temas de conflito para a declaração política final.
Mas a pergunta mantém-se: como falar de segurança alimentar ignorando o exemplo mais grave e atual de insegurança alimentar provocada por ações humanas?

O silêncio como política

Recusar nomear a fome é recusar agir. E essa recusa, disfarçada de prudência diplomática, mascara uma realidade brutal: a morte de civis pela fome é usada como instrumento de guerra — com o mundo a assistir em silêncio.

Declarar a fome em Gaza não seria apenas um gesto simbólico. Seria um reconhecimento jurídico e político de que o que ali se passa não é uma consequência colateral, mas uma estratégia deliberada — e como tal, punível à luz do direito internacional.

A palavra que falta

A ONU, a CPLP, e outras instituições enfrentam hoje uma escolha ética decisiva. A linguagem que usam — ou evitam — tem consequências reais. As palavras que faltam nos documentos e nas declarações são, muitas vezes, espelhos do que falta na vontade política.

Fome é fome. E a história não absolverá os que a calaram.

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