Gaza, Cisjordânia e o Espelho da História
Quando a denúncia chega tarde demais e a esperança ainda resiste
As palavras recentes de António Guterres — “chega de desculpas, chega de mentiras” — dirigidas a Israel, soaram como um grito tardio. O Secretário-Geral das Nações Unidas reconhece agora o que há muito era visível: a devastação em Gaza deixou de ser apenas uma crise humanitária para se transformar numa mancha moral no nosso tempo. Mas a questão permanece: até que ponto esta denúncia, embora justa, não chega demasiado tarde para as dezenas de milhares de vidas já perdidas?
A ofensiva sobre a cidade de Gaza simboliza a espiral sem saída dos palestinianos, empurrados de norte para sul, de Rafah para Deir al-Balah, num ciclo de fuga constante. O enclave está hoje reduzido a ruínas. Se em Gaza o futuro parece ter sido esmagado sob os escombros, na Cisjordânia ainda existe uma margem de esperança — mas também aí o perigo cresce diariamente.
Os ataques de colonos, a expansão contínua dos colonatos e a fragilidade da Autoridade Palestina tornam cada vez mais frágil a perspetiva de um Estado viável. E é aqui que a História pode oferecer paralelos úteis.
África do Sul (1948–1994): o apartheid criou territórios fragmentados, os bantustões, para negar cidadania à maioria negra. A semelhança com os enclaves palestinianos é evidente. No entanto, foi apenas a pressão internacional — sanções económicas, isolamento diplomático e boicote cultural — que obrigou o regime a ceder.
Argélia (1830–1962): a colonização francesa expulsou populações locais e instalou colonos europeus. A resistência foi feroz, o preço humano altíssimo, mas a independência acabou por se impor. Tal como Israel, a França dizia que a Argélia era “parte inseparável” do seu território — até o inevitável se tornar realidade.
Irlanda do Norte (1969–1998): décadas de violência e segregação terminaram apenas quando ambos os lados aceitaram que não havia vitória militar possível. O Acordo de Belfast mostrou que até os conflitos mais entrincheirados podem ser resolvidos através de negociações, com apoio internacional firme.
O que estes exemplos revelam é que nenhum sistema de dominação é eterno. O tempo pode estar do lado de quem resiste, mas o custo humano pode ser devastador se a comunidade internacional permanecer inerte. Gaza já é uma ferida aberta. A Cisjordânia, ainda não destruída, continua suspensa entre dois destinos: seguir o caminho dos bantustões sul-africanos ou encontrar uma saída política antes de atingir o ponto de não-retorno.
A lição que a História nos repete é clara: não há soluções militares permanentes contra povos inteiros. A pergunta é se o mundo terá coragem de agir antes que a esperança palestiniana se reduza também a cinzas.

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