A Fome e a Cumplicidade
A palavra “fome” tem um peso que nenhuma estatística consegue suavizar. Não é apenas um número em relatórios, não é uma abstração política. É o corpo que definha, é a criança que chora sem voz, é o adulto que perde a dignidade mais elementar: a de poder alimentar-se. Quando o IPC, organismo apoiado pela ONU, declarou oficialmente que Gaza vive em fome, a comunidade internacional deixou de poder fingir que se tratava apenas de uma crise humanitária grave. Não: é uma catástrofe fabricada.
Israel, potência ocupante, tem a obrigação legal e moral de permitir a entrada de alimentos e medicamentos. Não o fez. E ao não o fazer, abre-se a acusação de que a fome não é um acidente da guerra, mas uma arma de guerra. É uma linha vermelha que separa a brutalidade do genocídio.
Mas há outra pergunta, mais incómoda: e os Estados que apoiam Israel? Podem continuar a escudar-se na neutralidade, como se fossem meros observadores? A resposta é cada vez mais difícil de sustentar. Quem fornece armas, cobertura diplomática ou apoio financeiro a um país acusado de provocar deliberadamente fome, deixa de ser apenas aliado. Torna-se cúmplice.
E a cumplicidade aqui não é apenas jurídica, é moral. É a mesma que recai sobre quem, no passado, fechou os olhos a cercos e massacres, invocando interesses estratégicos enquanto a dignidade humana era esmagada. O peso da história é implacável com os cúmplices.
Há vozes, em várias capitais, que já percebem o perigo. Espanha, Irlanda, Eslovénia pedem contas. Até nos Estados Unidos, vozes tão distintas como Bernie Sanders e Marjorie Taylor Greene denunciam a fome em Gaza. É um sinal de que a realidade rompeu o muro da propaganda: a fome, afinal, não se consegue esconder.
E assim, chegamos ao momento em que cada Estado, cada governo, cada líder tem de escolher: ou se levanta contra a fome deliberada, ou aceita partilhar a sua autoria. O silêncio já não é neutralidade. É adesão.
A fome em Gaza será lembrada. E também será lembrado quem a provocou — e quem a sustentou

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