Gaza e o mapa global da fome: um silêncio cúmplice

A fome em Gaza, classificada já na Fase 5 da escala IPC — Catástrofe/Fome — é o retrato mais extremo de um problema que atravessa fronteiras e que deveria envergonhar a humanidade. Mas Gaza não é um caso isolado. O cerco e a destruição sistemática de uma população inteira revelam a utilização da fome como arma política e militar. E, se aqui o crime se expõe com nitidez, não deixa de ecoar noutras geografias.

O Sudão e o Sudão do Sul enfrentam guerras civis que desestruturam qualquer hipótese de vida digna, deixando milhões de pessoas à mercê da fome. No Iémen, uma guerra esquecida consome uma população inteira, destruindo infraestruturas e condenando crianças e famílias à sobrevivência mínima. Na República Democrática do Congo, décadas de violência alimentam um ciclo de deslocações e insegurança alimentar que atinge, sobretudo, o leste do país. No nordeste da Nigéria, a violência do Boko Haram e a insegurança crónica impedem qualquer estabilidade agrícola. No Afeganistão, o colapso económico, as secas e o abandono internacional empurram milhões para a miséria.

Todos estes cenários partilham traços comuns: a fome não é apenas uma consequência colateral, mas um instrumento de poder. A sua persistência deve-se tanto a dinâmicas internas como à indiferença global, onde a ajuda é distribuída de forma desigual, consoante interesses estratégicos ou mediáticos. Gaza expõe esse desequilíbrio com clareza. Enquanto o cerco é transmitido em direto, outras tragédias ficam reduzidas a notas de rodapé.

A questão central é esta: até que ponto aceitamos que populações inteiras sejam punidas através da fome? A comunidade internacional reage com indignação seletiva, condenando uns cenários enquanto ignora outros. Esta seletividade mina a legitimidade de qualquer discurso sobre direitos humanos e revela um silêncio cúmplice.

Se Gaza representa hoje o epicentro da catástrofe, ela deve também servir de alerta. Porque a fome, seja no Médio Oriente, em África ou na Ásia, é sempre um crime coletivo. E cada silêncio, seja dos governos ou da opinião pública, será estudado pelas gerações futuras como parte de uma responsabilidade partilhada.



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