Entre a Ucrânia e Gaza: a balança desigual da justiça

A forma como o mundo aborda a guerra e a verdade exige uma reflexão séria. As recentes declarações de Vladimir Putin sobre as supostas origens do conflito na Ucrânia ilustram como a narrativa pode ser distorcida para justificar o injustificável. Ao invocar a NATO, o Maidan, perseguições à população russa e até o Batalhão Azov, Putin constrói uma teia de meias-verdades. Embora existam fragmentos de realidade nas suas palavras, a ideia de genocídio ou de perseguição sistemática não encontra suporte em relatórios credíveis de organizações internacionais. É um discurso ao serviço da propaganda, não da verdade.

Ainda assim, mais revelador do que a retórica russa é a forma desigual como a comunidade internacional reage a diferentes guerras. No caso da Ucrânia, a invasão é corretamente classificada como violação da soberania de um Estado e deu origem a uma resposta coordenada, com sanções duras e abrangentes. Já em Gaza, a destruição atinge proporções dramáticas. Mais de dois milhões de pessoas estão cercadas num território devastado: bairros inteiros foram reduzidos a escombros, hospitais funcionam sem eletricidade nem medicamentos, e milhares de famílias vivem sem acesso a água potável ou alimentos básicos. As imagens de crianças desnutridas, de corpos resgatados dos escombros e de escolas transformadas em abrigos sobrelotados tornam impossível ignorar a dimensão humana desta tragédia.

Apesar disso, Israel continua a ser amplamente protegido pelo argumento da “legítima defesa”, o que neutraliza grande parte da pressão internacional. Enquanto Moscovo enfrenta sanções rápidas e coordenadas, Telavive é alvo apenas de medidas simbólicas e esporádicas. Essa discrepância não é apenas uma questão de geopolítica: traduz-se em sofrimento humano prolongado. A ausência de uma resposta firme permite que a crise se agrave, deixando a população civil palestiniana sem qualquer rede de proteção.

E é aqui que a dualidade se revela insuportável. Se a justiça internacional for capaz de agir de forma implacável contra a Rússia, mas incapaz de impedir a devastação em Gaza, então não estamos perante justiça, mas sim perante cumplicidade. A comunidade internacional, ao aplicar dois pesos e duas medidas, não só perde credibilidade: torna-se parte integrante da tragédia.


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