Enquanto animais são resgatados com urgência de Gaza e levados para abrigos na Europa, milhares de crianças palestinianas continuam cercadas, famintas e feridas — sem rota de saída nem tratamento.
Julho de 2025. No meio do ruído ensurdecedor da guerra em Gaza, há uma imagem que parece saída de um delírio humanitário: burros transportados para a Europa sob alegado tratamento de “trauma psicológico”, enquanto crianças mutiladas e famintas morrem sem assistência. Esta aparente inversão de prioridades levanta uma questão dolorosa: o que diz de nós uma guerra em que os animais conseguem escapar, mas as crianças não?
A “operação veterinária” que retirou burros de Gaza
Segundo vários relatos fidedignos, centenas de burros foram removidos por militares israelitas de zonas invadidas na Faixa de Gaza, em articulação com o abrigo israelita Starting Over Sanctuary e com apoio de ONG internacionais como a Network for Animals. As justificações oficiais apontam para um “resgate veterinário” de animais feridos ou em sofrimento extremo.
- O primeiro grupo de 58 burros foi enviado para abrigos especializados na Bélgica e França, em voos financiados por doadores privados e transportadoras associadas.
- Desde o início do conflito, mais de 600 burros terão sido recolhidos e transferidos para fora da Faixa de Gaza ou para centros em Israel, sob alegações de proteção animal.
A acusação: pilhagem organizada sob cobertura humanitária
Organizações palestinianas e ativistas de direitos humanos classificam esta operação como uma forma de pilhagem disfarçada. A maioria dos animais seria propriedade de famílias locais, usados como meio de transporte e sustento em zonas onde o combustível escasseia e as estradas foram destruídas.
- Os burros, fundamentais no transporte de alimentos, água e mesmo feridos, tornaram-se, segundo um veterinário de Gaza, “as verdadeiras ambulâncias da guerra”.
- Apesar disso, não houve qualquer tentativa de identificação dos donos nem promessas de devolução dos animais.
- Um dos abrigos envolvidos admitiu que os burros “não serão usados na reconstrução de Gaza” e não serão devolvidos “por motivos éticos”.
E as crianças? Um cerco sem rota de fuga
Enquanto isso, o acesso de crianças palestinianas a cuidados médicos e evacuação humanitária permanece praticamente bloqueado:
- Estimativas recentes da UNICEF e da OMS apontam para milhares de crianças feridas e centenas de mortes evitáveis, sobretudo por falta de acesso a cirurgias, oxigénio, incubadoras e alimentos.
- Famílias com documentação completa aguardam há semanas ou meses por autorização de saída para os seus filhos, muitas vezes sem resposta ou com pedidos negados por razões de “segurança”.
- Um relatório da Save the Children revelou que 96% das crianças entrevistadas dizem sentir que a morte é iminente.
Uma moral desconcertante
A comparação é inevitável — e desconcertante:
Burros com “trauma psicológico” cruzam fronteiras e recebem acolhimento em santuários europeus.
Crianças com membros amputados ou doenças graves ficam presas à espera de uma morte anunciada.
Não se trata de desvalorizar o sofrimento animal. Mas quando um burro consegue atravessar fronteiras com mais facilidade do que uma criança com hemorragia interna, estamos perante um colapso total dos princípios humanitários. Esta assimetria não é apenas prática. É moral, simbólica, profundamente política.
O espelho da nossa humanidade
As guerras revelam as fissuras mais profundas das sociedades. A forma como tratamos os inocentes — humanos ou animais — mostra quem somos. Mas quando a compaixão é seletiva, e quando a vida de um animal recebe mais proteção do que a de uma criança, talvez seja tempo de olhar o espelho e perguntar:
Que espécie de civilização é esta que se orgulha de salvar burros enquanto deixa morrer crianças?

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