Netanyahu e o projeto do “Grande Israel”

Quando Benjamin Netanyahu declara, em plena entrevista televisiva, que sente uma ligação “muito forte” ao conceito de um “Grande Israel”, não estamos perante um simples desabafo ideológico. Estamos perante a verbalização de um projeto político e territorial que há muito vem sendo aplicado no terreno.

A expansão incessante de colonatos na Cisjordânia, a recusa em reconhecer um Estado palestiniano viável, a marginalização sistemática da minoria árabe dentro de Israel e, agora, a ocupação total da Faixa de Gaza: tudo isto não são medidas isoladas. São peças de um plano coerente — “máximo de terra, mínimo de árabes”.

O problema não é apenas o que Netanyahu pensa; é o que Netanyahu faz. E o que ele faz tem consequências devastadoras: deslocações em massa, destruição de comunidades, morte de civis, erosão total da possibilidade de paz. Ao reivindicar este expansionismo como uma “missão histórica e espiritual”, o primeiro-ministro israelita coloca-se fora da lógica política e aproxima-se de um messianismo perigoso, que torna qualquer negociação impossível.

Não surpreende que uma coligação de países árabes e islâmicos tenha classificado as suas palavras como “ameaça direta à segurança árabe e à paz regional”. Na prática, Netanyahu transformou em discurso oficial aquilo que sempre foi denunciado como o núcleo duro do sionismo radical: uma visão de Israel sem fronteiras fixas, legitimada pela religião e imposta pela força.

O que está em causa não é apenas o futuro da Palestina. É a própria ordem internacional, fundada na ideia de fronteiras reconhecidas e no princípio de que povos não podem ser expulsos da sua terra para satisfazer ambições ideológicas. Se o Ocidente fechar os olhos a esta deriva, perderá toda a autoridade moral para falar em direitos humanos ou em respeito pelo direito internacional noutros cenários.

Netanyahu pode acreditar que conduz uma missão de gerações. A verdade é que conduz um país inteiro para o isolamento, a violência sem fim e a erosão da sua própria legitimidade. O “Grande Israel” pode ser o sonho de uns, mas é a catástrofe de muitos.






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