Para Além do Óbvio
O rio, as margens e a tragédia no Médio Oriente
Há frases que nos perseguem, não pelo que explicam, mas pelo que desvendam. Bertolt Brecht escreveu: “Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem.” E desde 7 de outubro de 2023, essa frase tornou-se uma espécie de eco insistente sempre que os olhos pousam sobre o que se passa em Israel e na Palestina.
Nesse dia, o mundo estremeceu ao assistir a um ataque brutal do Hamas contra Israel — um ataque inegavelmente terrorista, indiscriminado, dirigido a civis, e cuja violência suscitou condenação internacional quase unânime. Foi um desses momentos em que a história parece suspender o fôlego e nos força a olhar. Mas olhar não é ver. E ver, verdadeiramente, implica olhar para além do óbvio.
Sim, o ataque foi um “rio” de violência. Mas que margens o comprimiram até esse ponto? Que tensões, frustrações, injustiças e desesperos se acumularam ao longo das décadas até transbordarem desta forma?
Do lado palestiniano, as margens são conhecidas — mas, muitas vezes, convenientemente ignoradas. Um bloqueio que transforma Gaza numa prisão a céu aberto. Uma ocupação prolongada, colonatos que se multiplicam e fragmentam a Cisjordânia. Uma juventude sem horizonte. Casas demolidas, direitos negados, dignidade sistematicamente ferida. E uma comunidade internacional que, ano após ano, promete soluções que nunca chegam. O resultado é um barril de pólvora emocional, social e político — onde basta uma faísca para que tudo arda.
Mas as margens não estão só de um lado. Do lado israelita, existe o trauma — antigo e recente. A ameaça constante. O peso de viver cercado por inimigos declarados. A exigência legítima de segurança. Israel vive num estado de alerta perpétuo, onde cada gesto defensivo se mistura com estratégias de contenção e, muitas vezes, de dominação — incluindo ações preventivas que procuram neutralizar ameaças antes de se concretizarem, mesmo à custa de agravar tensões existentes.
Perante isto, o ciclo é conhecido: violência gera violência, medo gera medo, e a esperança evapora-se como água num deserto de cinismo.
Talvez o que mais falte, neste momento, seja justamente a vontade de ver para lá do que grita mais alto. De entender que a paz não se constrói só com condenações ao que transbordou, mas com coragem para reformar as margens que apertam, esmagam, asfixiam.
Porque, enquanto falarmos apenas dos rios, sem tocar nas margens que os deformam, não faremos mais do que observar o fluxo da tragédia — impotentes, e talvez cúmplices.

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