Reconhecer a Palestina e armar Israel: a contradição que alimenta a impunidade
Nos últimos meses, vários governos europeus anunciaram a intenção de reconhecer formalmente o Estado da Palestina. Para muitos cidadãos, esse gesto é visto como um passo importante na defesa da justiça e da paz no Médio Oriente. Contudo, essa decisão política esbarra numa contradição gritante: os mesmos países que falam em “dois Estados” continuam a fornecer, de forma direta ou indireta, armas e componentes a Israel.
A situação é paradoxal. Como pode um Estado reconhecer a Palestina ao mesmo tempo que ajuda a destruir o seu território e a sua população? Ao fornecer armas a Israel, esses países não estão a proteger a viabilidade de uma Palestina independente — estão, pelo contrário, a minar as condições mínimas para a sua existência.
O caso da Alemanha é exemplar. Berlim anunciou restrições, mas aumentou exponencialmente as exportações militares para Israel após 7 de outubro de 2023. A Itália declarou uma suspensão total de vendas, mas continua a cumprir contratos anteriores. O Reino Unido admitiu o risco de os seus equipamentos serem usados em violações do direito internacional, mas manteve a exportação de componentes para os caças F-35 israelitas. A França suspendeu “armas ofensivas”, mas continua a fornecer peças para o sistema Iron Dome e tecnologia de drones.
Em todos estes casos, o padrão repete-se: declarações públicas que soam a contenção e diplomacia equilibrada, seguidas de práticas que asseguram a continuidade da máquina de guerra israelita.
Esta duplicidade transmite a Israel uma mensagem clara: não importa quantas resoluções sejam aprovadas, quantos protestos internacionais se levantem ou quantos países reconheçam formalmente a Palestina — o fluxo de apoio material continuará. É precisamente essa contradição que alimenta a convicção de impunidade de Israel.
No fim, o reconhecimento da Palestina torna-se um gesto mais simbólico do que transformador, porque não vem acompanhado da única medida que poderia ter impacto real: um embargo efetivo de armas. Enquanto a Europa e outros aliados continuarem a vender armas com uma mão e a oferecer gestos diplomáticos com a outra, a destruição do Estado palestiniano prosseguirá, e as palavras de paz soarão ocas.

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