O paradoxo económico dos incêndios em Portugal

A floresta continua a ser tratada como um problema sazonal, quando deveria ser vista como um ativo estratégico nacional. Enquanto persistirmos na lógica do combate, o país continuará refém de um ciclo de destruição e reconstrução.

Todos os verões, o país assiste ao mesmo drama: milhares de hectares de floresta consumidos pelas chamas, populações em risco, património natural e humano devastado. Apesar dos avanços no combate, Portugal continua a enfrentar incêndios de grandes dimensões com uma frequência alarmante. O problema não é apenas climático ou acidental: é estrutural.

O abandono rural, consequência direta do êxodo populacional para as cidades, deixou vastas áreas agrícolas e florestais sem manutenção. A fragmentação da propriedade, com milhares de pequenos donos sem meios para gerir o território, agrava a situação. Resultado: um país coberto de combustível pronto a arder. Antes da década de 50 do século passado, quando a ligação das comunidades à terra era mais forte, os incêndios não tinham esta dimensão. A relação é clara: quanto maior o afastamento do homem da floresta, maior a vulnerabilidade ao fogo.

A isto somam-se práticas ilegais que, embora não sejam a causa principal, aumentam o risco: corte clandestino de madeira, que deixa resíduos inflamáveis, e despejo de lixo em áreas florestais, muitas vezes foco de ignição. Não há provas de que estas atividades existam para “lucrar com o fogo”, mas revelam um território mal gerido e explorado de forma ilícita.

Mais grave é o paradoxo económico criado pelos incêndios. A destruição gera custos enormes — humanos, ambientais e financeiros —, mas também alimenta setores que vivem da resposta. Empresas de limpeza, reconstrução e gestão pós-incêndio recebem contratos públicos significativos. A indústria da madeira beneficia, a curto prazo, de matéria-prima mais barata. Até o setor imobiliário pode tirar partido da reclassificação de terrenos, ainda que de forma limitada e regulada.

Assim, instala-se uma “economia do fogo”: enquanto o país arde, há setores que prosperam com a recuperação. O perigo é subtil mas real — se empregos, contratos e receitas dependem da resposta aos incêndios, pode faltar motivação para investir a sério na prevenção estrutural. Continuamos a gastar milhões no combate, ano após ano, mas não atacamos as causas profundas.

A verdadeira solução está na prevenção e na gestão ativa da floresta. Um território ordenado, com investimento em limpeza, silvicultura e valorização económica sustentável da floresta, reduz drasticamente o risco de incêndios catastróficos. Além disso, gera riqueza contínua: cria empregos diretos e indiretos, alimenta a indústria transformadora, preserva o solo e sequestra carbono — serviços essenciais num tempo de emergência climática.

Portugal precisa de encarar a floresta como um ativo estratégico nacional. Enquanto a tratarmos como um problema de verão, continuaremos presos ao ciclo destrutivo de arder, reconstruir e voltar a arder. Combater incêndios é inevitável, mas é apenas um remédio paliativo. O verdadeiro lucro — económico, social e ambiental — está em impedir que o fogo aconteça.

Comentários

  1. Que pena que quem dirige o nosso país não leia as suas Crónicas, esta em especial neste momento de horror para a Natureza, Pessoas, Animais e a economia deste país cada vez mais sugado por interesses. Sinceramente, sinto-me perdida nesta realidade......

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    1. Zita, A serra de Sintra deixou de arder quando leis especificas foram aplicadas no terreno e a prevenção passou a ser mais apertada. Para o resto do País , na minha opinião, basta cumprir a Lei

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