O PESO VAZIO DO 'NUNCA MAIS'
É fácil encontrar quem grite
“Nunca Mais”. A frase ecoa bem em cerimónias oficiais, em
discursos de Estado e em textos que se pretendem moralmente elevados.
Mas, na maioria das vezes, “Nunca Mais” não significa
compromisso preventivo. Significa apenas que algo já aconteceu,
perante a inação ou cumplicidade de quem podia agir, e que a
consciência coletiva precisa agora de uma fórmula para tentar
expiar a culpa.
Em Gaza, a fome só pôde ser chamada
“fome” depois de preencher os requisitos semânticos impostos
pela comunidade internacional. Até lá, apesar das crianças
subnutridas e das mortes já visíveis, falava-se em “insegurança
alimentar severa”. O horror real teve de esperar pela chancela
burocrática para ser reconhecido. É um paradoxo cruel: a catástrofe
só passa a existir oficialmente quando já matou o suficiente para
ser inegável.
No Sudão do Sul, em 2017, a fome foi
declarada e a ajuda chegou, de forma precária, bloqueada muitas
vezes pela própria guerra. Houve manchetes, apelos, fundos de
emergência. Mas rapidamente a crise desapareceu das notícias e, com
o silêncio mediático, também o estatuto de “fome” deixou de se
aplicar. O sofrimento, esse, manteve-se — apenas sem nome nem
atenção. Hoje, quase ninguém evoca aquele desastre, nem se ouve a
frase ritual “Nunca Mais”.
O contraste entre Gaza e o
Sudão revela a contradição essencial: o “Nunca Mais” não é
universal. É seletivo, circunstancial e politizado. Surge quando as
imagens são demasiado fortes para serem ignoradas, ou quando convém
a certas narrativas internacionais. E desaparece quando a indignação
deixa de “vender” notícias.
Assim, a frase perde o
seu valor original. “Nunca Mais” deixa de ser promessa e
transforma-se em epitáfio. É uma forma solene de dizer: “Agora é
tarde demais”.


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