Era uma vez, na Lunda...
Ah, meu caro, que me traz à memória os tempos em que a vida se desenrolava num compasso lento, como um rio que serpenteia a savana. Recordo a véspera da minha entrada na escola primária, um marco na vida de qualquer petiz.
Vivíamos no Fucaúma, um lugar onde a Casa do Pessoal se erguia como um farol na vastidão, mas onde a escola primária e o cinema eram miragens distantes, acessíveis apenas após uma penosa viagem de 60 km até Cassanguidi, por uma estrada de terra batida que punha à prova a paciência de qualquer santo.
No entanto, a vida não era desprovida de sons e cores. Havia a escola indígena, um lugar onde a tabuada ecoava em coro ao final do dia, um som que nos chegava aos ouvidos como um murmúrio distante.
A viagem para a escola era uma aventura em si mesma, a bordo de um jipão Land Rover, conduzido por um homem Quioco de mãos firmes e olhar sereno, de nome Boa Ventura. Diziam que era um mestre na arte da condução, capaz de transformar estradas de terra batida em verdadeiras autoestradas.
E o cinema de Cassanguidi, meu caro, era um mundo à parte. Durante o intervalo dos filmes, os miúdos formavam uma fila, como soldados em parada, para entregar à professora amendoins torrados, um ritual que me deixava de fora, um espectador silencioso de um mundo que ainda não me pertencia.
O meu irmão, esse sim, tinha o privilégio de frequentar a escola, enquanto eu ficava para trás, a aguardar ansiosamente o seu regresso, para poder brincar aos índios e cowboys, a viver as aventuras que a minha imaginação fértil me proporcionava.
Mas um dia, o meu pai, um homem de poucas palavras e gestos firmes, falou com a professora, e o mundo mudou para mim. Deixaram-me entrar para a escola com apenas cinco anos, um presente que me abriu as portas de um novo mundo.
E, pouco depois, na próxima ida ao cinema, já eu me encontrava na fila, com os outros, a entregar os amendoins torrados à professora, um gesto que me fez sentir como um gigante, um membro de pleno direito daquele mundo mágico.
Ah, meu caro, que tempos aqueles! Tempos em que a vida se desenrolava num compasso lento, mas que deixaram marcas indeléveis na minha alma.
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