O Peso dos Dias

O dia começou mal.

Logo de manhã, o carro decidiu não colaborar. Uma avaria inesperada. Ele suspirou fundo, já prevendo o aborrecimento que vinha a seguir. Pegou no telemóvel e ligou para a companhia de seguros.

O processo, como sempre, foi uma tortura. Primeiro, uma gravação automática a listar opções. Depois, um labirinto de teclas. "Prima 1 para assistência. Prima 2 para informações sobre a apólice. Prima 3 para...". Nada que fosse direto ao que realmente precisava.

Depois de uma eternidade a navegar pelo menu infinito, finalmente conseguiu solicitar o reboque. A assistente virtual confirmou o pedido, e ele ficou a aguardar. O motorista do reboque foi a primeira pessoa real com quem conseguiu falar desde que tudo começou. E foi também a primeira a olhá-lo nos olhos e dizer simplesmente:

— Então, patrão, que se passou aqui?

E só por isso, já foi um alívio.


O Peso da Subida

Foi para casa a pé. Não era longe, mas o caminho não era feito para quem já carregava o peso dos anos nas pernas. As subidas, que outrora vencia sem pensar, pareciam agora pequenas montanhas. Sentiu o esforço em cada passo, o fôlego a fugir-lhe antes do tempo. Quando finalmente chegou a casa, estava exausto.

Almoçou devagar. Bebeu um café forte. E, sentindo o cansaço a puxá-lo para um descanso inevitável, decidiu deitar-se um pouco.

Foi com todo o cuidado, sem fazer barulho, mas não adiantou. Ela tinha ouvidos atentos, quase felinos. Ou melhor, literalmente felinos.

Mal se deitou, sentiu o peso leve da gata a subir para a cama. Aproximou-se, massajou-lhe o peito com as pequenas patas, depois virou-se e encostou-se nele, numa conchinha quente e ronronante. Ele fechou os olhos e deixou-se ficar, embalado pelo som da respiração dela.

Lá ficaram os dois, a descansar. Enquanto isso, a sua mulher dormia no sofá da sala, alheia a essa cumplicidade silenciosa entre o homem e o gato.


O Peso das Palavras

Mas claro que, mais cedo ou mais tarde, a voz chegou. A voz que sempre chegava, carregada de certezas absolutas.

— Se fosse comigo, nada disto tinha acontecido. O carro? Não teria avariado, porque eu teria feito uma revisão na oficina da marca. Não teria perdido tempo com máquinas ao telefone. E andar a pé? Nunca! E essa coisa de dormir com gatos na cama… onde é que já se viu? Havia de ser comigo!

Ele nem respondeu. Apenas passou a mão pelo pelo macio da gata, que continuava a ronronar, indiferente a tudo.

E pensou que, de todas as vozes do dia, aquela que mais lhe agradava era a dela.

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