A Água é de Todos — Mas Alguém a Transporta
Dizia-me um professor, há muitos anos:
“A água, como o ar, não se paga. O que se paga é o transporte.”
E essa frase ficou.
Como fica tudo o que tem o peso da
evidência e a leveza da ironia.
Porque é verdade.
A água cai do céu, escorre pela
terra, brota das nascentes — sem fatura.
Mas se a
queres na torneira, no duche, no autoclismo…
então sim:
paga-se.
E bem.
Os galegos já sabiam disto há séculos.
Quando os aguadeiros galegos chegaram a Lisboa,
ainda no século XVIII e XIX, trouxeram um negócio simples e
engenhoso:
levavam água das fontes públicas até às
casas das pessoas.
Com barris às costas, e força
nas pernas.
E resumiam tudo numa frase genial, repetida entre conterrâneos:
«A terra é boa, a xente é tola, a auga é deles e nós vendemoslla.»
O melhor resumo de economia prática alguma vez dito por um aguadeiro.
Nada mudou, no essencial.
Hoje, os aguadeiros são tubos, bombas, redes subterrâneas
e contadores digitais.
Mas a lógica é a mesma.
Pagamos pelo transporte, pelo tratamento, pela estrutura que
permite que a água chegue à torneira —
e, por vezes, pagamos
como se fosse champanhe.
A água, afinal, não é gratuita?
É e não é.
Não se paga à natureza — mas paga-se à
civilização.
E quanto mais complexo for o caminho da água,
mais cara se torna.
E a questão continua a ser:
Quem a controla?
Quem decide onde chega e quanto custa?
Quem lucra com um bem que deveria ser de todos?
A ironia de sempre
Os galegos, que vinham de terras pobres, tornaram-se donos da água
—
não porque a possuíam,
mas porque tinham nas
mãos o esforço que ela exigia.
Hoje, o modelo mudou, mas o princípio permanece:
quem
domina o acesso, domina o preço.
Mesmo quando o
recurso é comum.
📌 Conclusão?
A água é tua
Mas se não a fores buscar…
alguém a
vai vender !
E não te esqueças:
«A terra é boa, a xente é tola, a auga é deles… e nós vendemoslla.»

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