As Sementes da Melancia
Uma Crónica sobre Destinos Cruzados
Havia algo de poético na analogia. A ideia de que duas sementes, tiradas da mesma melancia, plantadas em "terrenos" diferentes, jamais dariam frutos idênticos.
Discutíamos o impacto do ambiente no desenvolvimento, e a conversa rapidamente saltou da botânica para a sociologia, aterrando na complexa tapeçaria das vidas humanas.
Tudo começou com uma questão simples: se plantarmos duas sementes da mesma melancia em terrenos diferentes, os frutos seriam iguais? A resposta, claro, era um "não" retumbante. Fatores como a composição do solo, a água, o sol, a temperatura, a polinização e até as pragas – cada um desses elementos moldaria o fruto de forma única. A melancia manteria a sua essência, sim, talvez a cor da polpa, o padrão da casca, mas o tamanho, o peso, a doçura e a textura seriam irremediavelmente distintos.
Foi então que surgiu uma analogia que me tocou particularmente: a das crianças brancas que cresceram em África no tempo do colonialismo e as que nunca saíram de Portugal. De repente, a discussão sobre solos e nutrientes transformou-se numa reflexão sobre educação, racismo e as cicatrizes invisíveis da história.
Lembrei-me do apartheid na África do Sul, um sistema onde a segregação racial era lei e a educação, uma ferramenta para cimentar a superioridade de uns e a inferioridade de outros. Crianças brancas eram ensinadas a ver o mundo através de lentes de privilégio, dentro de uma narrativa eurocêntrica que desumanizava tudo o que era africano. O "terreno" era tóxico, e o "fruto" — a pessoa — seria inevitavelmente moldado por essa podridão.
Mas a conversa aprofundou-se. Angola, antes de 1974, era palco de uma segregação que, embora não codificada como o Apartheid sul-africano, estava inscrita em leis, hábitos e muros invisíveis. Portugal tinha o Estatuto do Indigenato, um sistema que dividia legalmente os habitantes das colónias entre “civilizados” e “indígenas”. Estes últimos — a maioria da população africana — viviam com menos direitos, sujeitos a trabalho forçado, impostos especiais e a uma justiça diferente. Não podiam circular livremente, estudar nas mesmas escolas, nem participar na vida política. Para deixarem de ser “indígenas”, tinham de provar que adotavam os valores europeus, como se a dignidade precisasse de aprovação.
Este estatuto vigorou até 1961, ano em que foi finalmente abolido — mas os seus efeitos prolongaram-se muito para lá da tinta que os revogou. O racismo continuava entranhado no quotidiano, tantas vezes disfarçado de normalidade.
Foi nesse ponto que alguém partilhou uma memória que ficou no ar, como uma nota suspensa. Tinha vivido a infância em Angola e regressado a Portugal em meados dos anos 60. Os colegas da escola primária só voltariam quase uma década depois, após a revolução e a descolonização. Disse então, com uma clareza que o silêncio sublinhou: “Somos sementes da mesma melancia, mas fomos plantados em terrenos diferentes.”
A frase ressoou. Um gesto simples, mas que condensava uma verdade profunda. Essa semente, transplantada antes do fim da guerra colonial, cresceria num ambiente que, apesar das suas próprias tensões, se preparava para uma revolução. As outras sementes ficaram em solo angolano, atravessando o recrudescimento do conflito, a tensão social, a instabilidade crescente e, por fim, uma descolonização abrupta e muitas vezes traumática. O “fruto” de cada uma seria inevitavelmente marcado por essas experiências.
A analogia das sementes da melancia é mais do que uma mera ilustração. É um espelho que reflete as complexas camadas da experiência humana, mostrando como o "terreno" da história, da cultura e da sociedade pode moldar a nossa identidade, as nossas perspetivas e o nosso lugar no mundo — mesmo quando partilhamos a mesma origem.
Duas sementes, da mesma melancia, cujos frutos contarão histórias radicalmente distintas.

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