Bica, Cimbalino e a Boca que Vai (ou Vaia?) a Roma

Desde que as redes sociais começaram a oferecer sabedoria em doses de 280 caracteres, nasceu uma nova geração de “descobridores de curiosidades.”
São aqueles que, entre um scroll e outro, se deparam com revelações como:“Sabias que BICA quer dizer Beba Isto Com Açúcar?”

E pronto.
Está descoberta a origem do café expresso em Lisboa — por decreto digital e sem contraditório.

Vamos por partes. E com calma, como se tira um bom café.

BICA, dizem alguns, nasceu como acrónimo promocional.
Outros, com mais fé na lógica e menos na criatividade dos marketeers de 1920, lembram-se que “bica” é a torneira, o fio de água, a fonte.
E que o café corria… em bica.
Simples assim.

Mas há mais:
No Porto, não se pede uma bica — pede-se um cimbalino,
porque a máquina da moda era a italiana Cimbali,
e os portuenses sempre foram bons a dar nomes às coisas.

Ou seja:
Lisboa bebe o que corre em bica.
O Porto pede o nome da máquina.

Ambos tomam café — e nenhum precisa de siglas rebuscadas.

📌 A confusão que persiste

Nas redes sociais circula, com ar de descoberta, a ideia de que o ditado correto seria
“Quem tem boca, vaia Roma” — como se todos o tivéssemos dito mal até hoje.

Mas é precisamente o contrário:
a forma correta sempre foi “Quem tem boca, vai a Roma”.
O erro nasce da confusão com o verbo vaiar — que nada tem que ver com o sentido original do provérbio,
que elogia a capacidade de perguntar, comunicar e encontrar o caminho.

Este ditado não é exclusivo do português:

  • Em espanhol: “Preguntando se va a Roma.”

  • Em francês: “C’est en demandant qu’on va à Rome.”

  • Em italiano: “Chiedendo si va a Roma.”

Todas significam o mesmo:
quem pergunta, chega lá.




A culpa é do algoritmo?

Não só.
Vivemos tempos em que a curiosidade anda solta, mas a verificação anda distraída.
As pessoas querem descobrir, partilhar, surpreender.
Mas nem sempre querem confirmar.
E assim nascem mitos modernos, com aspeto de sabedoria antiga.

Mas também há beleza nisto.

Mesmo quando erram, estas histórias mostram vontade de saber.
De compreender de onde vêm as coisas que usamos todos os dias —
seja um café ou um provérbio.

E isso vale algo.
Porque viver é também isso:
perguntar — mesmo que às vezes se pergunte mal.

📌 Conclusão?

O mais importante é continuar a perguntar.
Ter “boca que vai a Roma” — mesmo que o GPS esteja mal afinado.
E se alguém te disser que BICA quer dizer “Beba Isto Com Açúcar”...
sorri.
Oferece-lhe um cimbalino e diz-lhe que há histórias melhores ainda por descobrir.


Comentários

  1. Muito bom!!!!! Eu, que sou da zona do "Cimbalino", adoro uma "bica" bem gostosa que não me vaia saber mal... ;)

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  2. Zita , Os cafés vaião saber sempre bem ! :)

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