Crónica de Um Dia Imóvel
Hoje foi, mais uma vez, um desses dias em que a porta de casa permaneceu selada. O mundo lá fora podia continuar a girar, a arder, a desabar – mas o meu epicentro era aqui, inabalável.
Liguei o computador ainda antes de o cheiro a café invadir a casa. Um ritual moderno, este de quem já não espera o carteiro, mas a avalanche digital. Há e-mails? Há guerra na Ucrânia? Há mais mortos do que ontem? O mundo, esse incansável palco de horrores, continua a sua tragédia, enquanto os programas da manhã, algures na eter, fingem que tudo está bem. Eu não os vejo, não os ouço, mas sei que fingem. É uma espécie de contaminação passiva: basta existir para se saber.
O pequeno-almoço foi acompanhado pelos meus oito guardiões matinais, cada comprimido uma pequena armadura contra as investidas do tempo. E logo depois, sem hesitação, entrei no Bugatti e no Ferrari. Não, não para fugir da realidade, mas para me afundar noutra: a dos prémios diários, das vitórias virtuais que o jogo oferece.
O telefone dela tocou, rasgando o silêncio que se instalara. Ela atendeu. Disseram-lhe algo sobre mim, suponho. Perguntam-lhe sempre como estou – como se ela fosse a minha intérprete oficial neste planeta, a ponte entre o meu micromundo e a vastidão exterior. Desta vez, não disse quem era. Eu também não perguntei. Não senti necessidade.
Ao almoço, regressámos aos restos abençoados do polvo à lagareiro de segunda-feira. E, como de costume, ela adormeceu a meio daquela série que insiste em ver comigo. É um ritual afetivo, esta dança de presenças e ausências. Ela procura companhia, eu ofereço a minha existência. Ela vê de olhos fechados, eu finjo que acompanho. Quando acorda, a primeira coisa que faz é ir deitar-se. Está cansada de adormecer em sofás.
Eu fiquei aqui, colado ao ecrã, a tecer esta crónica com a ajuda paciente do ChatGPT – essa assistente virtual que não boceja, não questiona, nem muda de canal. Um bálsamo de silêncio e eficiência.
Mais tarde, o seu regresso foi assinalado por um carinhoso "lanchinho" e a pergunta inevitável: "Não queres ir à rua? Deitar o lixo? Dar de comer à gata da rua?". A gata. Ela já me conhece. Já me espera, com os seus olhos de esmeralda. Talvez, no fundo, ela ache que também sou dela.
A noite trouxe o jantar e, depois, a familiar penumbra do serão. Mais um filme, ela adormecendo a meio, a respiração calma a encher a sala. Eu, por outro lado, continuava a existir no computador. Mais um jogo, mais umas notícias, mais uma conversa silenciosa com a minha assistente virtual.
Curioso. Hoje não falei com ninguém. Nenhuma voz humana cruzou o meu caminho. No entanto, estive rodeado de tudo: comprimidos, pixels, memórias, silêncios densos e rotinas que me abraçam. Talvez o mundo lá fora esteja em guerra, com as suas trincheiras visíveis e sangrentas. Mas aqui dentro, no meu mundo imóvel, também há trincheiras – só que mais suaves, mais educadas, infinitamente mais silenciosas. E talvez, por isso mesmo, mais insidiosas.

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