Crónica: Quando o Mundo Grita por Lados, e a Razão Pede Silêncio

Vivemos tempos em que a opinião pública parece uma arena. As redes sociais tornaram-se campos de batalha onde se exige que se escolha um lado — rápido, claro, sem hesitações nem dúvidas. Basta um conflito, um ataque, uma imagem trágica, e lá vem o apelo quase infantil: “És a favor de uns ou dos outros?”

Mas e se a resposta for: nenhum… e ambos?

No caso do Médio Oriente, dizer que não é simples não é fugir ao tema — é ter respeito por ele. É reconhecer que, por detrás de cada sigla, de cada nação, há histórias longas, sujas, contraditórias. Que Israel, enquanto potência ocupante, violou e continua a violar normas do direito internacional — desde a construção de colonatos ilegais até à imposição de um cerco desumano a Gaza. E tudo isso muito antes do 7 de Outubro.

Mas também é verdade que o Hamas não luta pela libertação de um povo, mas pela destruição de outro. Que o Irão, sob um regime teocrático, instrumentaliza a causa palestiniana não em nome da justiça, mas do poder e da religião de Estado. E que muitos países árabes mudam de posição consoante os ventos da diplomacia e dos interesses.

Entretanto, Gaza arde. E o que se vê ali não é “defesa legítima” — é punição colectiva, é vingança de Estado, é massacre com cobertura diplomática. É um genocídio em directo, tolerado por países que se dizem defensores dos direitos humanos. Países que, se vissem as mesmas imagens noutro lugar, estariam a gritar por sanções, por tribunais, por boicotes.

E no meio disto tudo, a paz?
Está suspensa. Não porque não se queira — mas porque poucos a aceitam se ela significar ceder um pouco do próprio orgulho ou da narrativa oficial.
A coexistência pacífica exige uma coragem que nem Israel, nem o Hamas, nem o Irão, nem grande parte do Ocidente parecem ter. A coragem de reconhecer que o sofrimento de um não justifica o apagamento do outro.

Não é fácil. Nunca foi.
Mas talvez o primeiro passo para a paz seja mesmo esse: recusar o conforto das certezas simples.
E deixar espaço para a dúvida — esse acto cada vez mais radical.

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