O
Disco de Ouro
Em 1977, a NASA decidiu fazer um gesto que os poetas compreendem
melhor do que os engenheiros:
enviou ao espaço uma mensagem
para o futuro.
Ou para os deuses.
Ou para quem
andasse por aí a ouvir.
Chamaram-lhe o Disco de Ouro da Voyager.
Um vinil dourado — literal — cheio de sons da
Terra:
batimentos cardíacos, saudações em dezenas de línguas,
o riso de uma criança, músicas de Bach, gamelão de Bali, Chuck
Berry, e o som do beijo de uma mãe.
Incluíam ainda imagens
codificadas, fórmulas físicas e gráficos sobre o hidrogénio
— esse elemento democrático do Universo.
Tudo preparado com o cuidado de quem quer dizer:
“Estamos aqui. Existimos. E valemos a pena.”
E no entanto…
Ninguém enviou com a sonda um gira-discos.
Nem
auscultadores.
Nem manual de instruções com QR Code
intergaláctico.
Só umas instruções em pictogramas cravadas na capa do disco —
um esforço visual tão humano quanto ingénuo.
Porque, sejamos
honestos: nem todos os humanos de 2025 saberiam ler
aquilo.
Quanto mais um cefalópode telepático de
Andrômeda.
E é aqui que imagino o astronauta esquecido.
Seguindo atrás da sonda, aos tropeções pela Via Láctea,
de
gira-discos debaixo do braço,
a gritar em silêncio:
“Desculpem! Esqueceram-se disto! Sem isto não dá para ouvir o disco!”
É a imagem perfeita da condição humana:
fazemos
grandes gestos — e esquecemo-nos do essencial.
Como
oferecer um livro a quem não sabe ler.
Ou plantar uma árvore…
num deserto.
Mas talvez, ainda assim, funcione.
Talvez o gesto valha mais do que a leitura.
Talvez, mesmo sem
entender nada, um ser lá longe oiça aquele riso de criança e
pense:
“Quem são estes que riem no escuro?”
📌 Conclusão?
O Disco de Ouro é talvez a maior obra de ficção
científica real da história.
Uma carta sem
destinatário.
Uma esperança gravada em vinil, lançada ao
acaso cósmico.
E nós, os que ficámos, continuamos a olhar para o céu,
à
espera que alguém ouça.
Enquanto o astronauta — esse símbolo do esquecimento —
segue
viagem com o gira-discos,
na mais longa ida ao multiverso buscar
um leitor.

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