“Eles ainda não viram nada”
Há frases que se dizem.
Outras que se disparam.
A de André Ventura — “Eles ainda não viram nada”
— pertence à segunda categoria.
Não é uma constatação,
nem um desabafo. É uma promessa com cheiro a pólvora.
A retórica do medo tem muitos sotaques, mas poucas palavras novas. “Ainda não viram nada” é, acima de tudo, um aviso: o que viram até agora — polémicas, purgas, confrontos — foi só aperitivo. O prato principal está a caminho, e não vem temperado com democracia.
Este tipo de frase não é inocente. É pensada para galvanizar os fiéis e amedrontar os restantes. Usa-se para dar a entender que o poder ainda nem sequer começou a mostrar a sua verdadeira força — e que, quando o fizer, será tarde demais para reagir.
Funciona como uma espécie de ensaio geral para o autoritarismo. Diz-se ao povo que aguarde, que confie no castigo, que o “tempo dos brandos costumes” acabou. E os aplausos crescem, não por esperança, mas por vingança. A política como arena, o país como campo de batalha simbólica.
Mas vejamos com calma:
Quem são “eles”?
E
mais importante: quem decide o que é “ver”?
Na lógica da frase, “eles” são os outros — os jornalistas, os juízes, os professores, os sindicatos, os “intelectuais”, os ciganos, os migrantes, os que incomodam, os que pensam alto. Uma massa amorfa que serve de espantalho para justificar o endurecimento das regras.
E o “ver”? O “ver” não é visão. É submissão.
Não
se trata de mostrar argumentos, mas de impor consequências.
Há quem ouça esta frase e encolha os ombros, rindo com desdém:
“É só conversa.”
Mas convém lembrar que todas as
tempestades começam com nuvens.
E todas as tiranias começam
com frases assim — lançadas ao ar como balões de ensaio, para
medir quem se indigna, quem se cala, quem abana a cabeça.
“Eles ainda não viram nada.”
Pode parecer
arrogancia, mas é ensaio geral.
E a História já nos ensinou
como esses ensaios tendem a acabar.
A questão não é o que ainda não vimos.
É se, quando
virmos, já será tarde demais para fechar os olhos.

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