Israel e o Segredo Mais Gritado do Médio Oriente
Uma potência nuclear não assumida ataca quem ainda não o é. Ironia ou estratégia?
Israel nunca disse "temos armas nucleares". Mas também nunca disse que não tem. Há décadas, segue uma política de ambiguidade deliberada — um segredo ruidosamente guardado. A frase repetida como mantra é: "Israel não será o primeiro país a introduzir armas nucleares no Médio Oriente."
Curioso. Porque quase todos os especialistas concordam: Israel já as introduziu há muito. A estimativa mais conservadora aponta para cerca de 90 ogivas nucleares. As mais ousadas falam em 400.
Israel não assinou o Tratado de Não Proliferação Nuclear, não permite inspeções internacionais completas, e possui uma tríade nuclear operacional:
Mísseis balísticos (série Jericho),
Submarinos armados (classe Dolphin),
Caças F-15 e F-16 com capacidade de lançar ogivas.
Tudo isto enquanto aponta o dedo ao Irão.
A Doutrina do Espelho Tapado
A doutrina israelita é clara: atacar antes que o inimigo possa ter capacidade de os atacar. É esta lógica que sustenta os seus ataques preventivos — como o mais recente, em junho de 2025, contra alvos nucleares iranianos.
Mas o paradoxo é gritante: um Estado que nunca reconheceu as suas armas nucleares bombardeia outro por recear que venha a tê-las. A guerra da dissuasão, que supostamente evitaria confrontos, tornou-se, aqui, uma guerra da negação, onde a falta de transparência alimenta a desconfiança e a instabilidade regional.
É então um ataque despropositado?
Depende de onde se olha.
Do ponto de vista jurídico e internacional:
Sim, pode ser considerado desproporcionado ou ilegal. Israel não está formalmente sob ameaça nuclear imediata. O Irão está (ainda) sob vigilância da AIEA e não há provas públicas de que esteja a fabricar armas nucleares. Logo, um ataque preventivo sem mandato internacional levanta sérias questões legais e fragiliza o direito internacional.
Do ponto de vista israelita:
É uma questão de sobrevivência nacional. Israel age com base na memória histórica de perseguições e na doutrina que diz: "Não podemos deixar os outros ter o que nós temos, mesmo que não digamos que temos." A prioridade é a sua segurança existencial, mesmo que isso signifique agir de forma unilateral.
A Ambivalência Estratégica
"Como pode alguém exigir transparência quando vive mergulhado no silêncio?" Esta é a essência da ambiguidade estratégica de Israel: eficaz no curto prazo, insustentável no longo. Manter este "segredo" permite uma margem de manobra tática, mas, a longo prazo, alimenta a corrida armamentista na região, intensifica a desconfiança e torna qualquer caminho para a estabilidade e a paz ainda mais complexo e frágil.

Comentários
Enviar um comentário