Memória Curta, Raiva Longa — Como se Renova o Ódio com Cheiro a Mofo

Ele tem 16 anos e diz que quer um país limpo, forte, como "antigamente".
Não sabe explicar bem o que era esse antigamente.
Não viveu nele.
Mas alguém lhe disse que era bom.

E ele acreditou.

Diz que no tempo dos seus avós havia ordem.
Que não havia imigrantes a "estragar tudo",
nem "minorias a fazer barulho".
Diz que os homens eram homens, as mulheres sabiam o seu lugar, e a escola ensinava como deve ser.

Fala com segurança —
mas repete frases que ouviu ao almoço.
Ou num vídeo.
Ou num qualquer grupo fechado onde todos gritam o mesmo.

📺 Como é que um rapaz de 16 anos se torna saudosista de um tempo que só conhece pelas histórias editadas?

Simples.
Porque a raiva precisa de rumo.
E a memória colectiva… tem prazo curto.

Não se lembra do medo.
Não se lembra da censura.
Não se lembra das mulheres caladas, dos presos políticos, dos livros proibidos, da pobreza com farda.

Sabe apenas que hoje se sente perdido.
E que alguém lhe prometeu que ontem era melhor.
Mesmo que esse ontem tenha sido um desastre com boas marchas e maus cheiros.

🌪️ Por que voltam estas ideias?

Porque o presente é confuso.
Porque a democracia cansa.
Porque as redes sociais gritam mais alto do que a História.
Porque há quem prefira a ordem à liberdade — desde que a ordem não os oprima a eles.

E porque, no meio de tudo, há pais, professores e líderes que se calam, desistem ou têm medo de contrariar.

🧠 O jovem não é o problema.

A ausência de pensamento é.
A facilidade com que se reescreve o passado é.

Um extremista de 16 anos é, muitas vezes, um miúdo à procura de chão.
E a extrema-direita aparece com botas.

📌 Conclusão?

As ideias autoritárias não voltam com tanques.
Voltam com discursos polidos, palavras recicladas e memórias seletivas.
São vendidas como patriotismo, mas alimentam-se da ignorância.

E quanto mais ignorância, mais rápido o passado volta —
mas desta vez com grafismo novo, slogan vibrante e voto democrático.

O jovem grita “viva a nação!”.
Mas a história, se ainda tivesse voz, talvez lhe respondesse:

“Menino, se soubesses o que estás a chamar… calavas-te devagarinho.”

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