Noticiar ou Colaborar? — O Telejornal Como Espelho da Nossa Cobardia
Há um ditado antigo que diz: “o que não se vê, não
existe.”
E os telejornais parecem tê-lo levado à
letra.
Sobretudo em Portugal.
As primeiras notícias abrem com futebol,
seguem com um
acidente local,
talvez uma peça simpática sobre turismo,
e
depois, lá no fim,
a guerra. A fome. O genocídio.
Quando sobra tempo.
Quando não atrapalha a publicidade.
Quando já não incomoda demais.
O problema?
É que esta omissão não é neutra.
Não é
distracção.
É escolha editorial.
E essa
escolha tem consequências.
Deixar de noticiar uma tragédia que continua, todos os dias,
é colaborar com quem a perpetua.
Porque a indiferença também é uma arma.
📰 Mas porquê esconder?
Porque o horror contínuo não tem audiência.
Porque
mostrar crianças palestinianas mortas afasta patrocinadores.
Porque
mostrar um camião de farinha cercado por balas destrói a
narrativa confortável.
Porque é mais fácil dizer que
"o assunto é sensível" do que reconhecer que se escolheu
o silêncio.
E nós, telespectadores?
Vamos comendo as notícias mastigadas.
Aceitamos que um jogo
da Liga tem mais destaque que cem mortos civis.
Que um drama de
supermercado é mais urgente do que a limpeza étnica de um povo.
E depois dizemos que não sabíamos.
Mas sabíamos.
Só que deixámos de ver, porque eles deixaram de mostrar.
📌 Conclusão?
O jornalismo não serve para entreter.
Serve para
incomodar.
Serve para mostrar o que dói,
o
que não se quer ver,
o que nos obriga a pensar.
Quando um telejornal omite,
está a
alinhar-se com o opressor.
Mesmo que use gravata.
Mesmo que sorria para as
câmaras.
Porque em tempos de injustiça gritante,
calar não é neutralidade.
É colaboração por omissão.
E Portugal, terra de
poetas e navegadores,
não pode continuar a navegar em
águas turvas só porque dá menos trabalho.

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