Num mundo em que tudo acontece à pressa, resta-nos um único santuário de reflexão, isolado, cerâmico e democraticamente acessível: a casa de banho. Entre azulejos e autoclismos, descobri que talvez seja ali, no mais improvável dos tronos, que se travam as grandes batalhas da consciência e se sonham revoluções discretas. Esta crónica é uma homenagem a esse espaço — e ao pensamento que dele emana.


                                             “No Trono da Reflexão”





Toda a gente tem aquele lugar onde pensa melhor. Uns é no chuveiro, outros no trânsito... Eu? É na casa de banho. Nada como o trono de porcelana para resolver problemas mundiais e meditar sobre as misérias da existência.

É ali, de calças pelos tornozelos e cotovelos nos joelhos, que a mente se liberta. De repente, lembro-me da dívida externa das Berlengas do preço do azeite e até daquilo que devia ter dito à vizinha do 3.º quando ela disse que "o mundo está perdido". Pois está, dona Hermínia. Mas olhe, é aqui que eu o tento reencontrar.

A casa de banho tem tudo: isolamento acústico, privacidade garantida e uma acústica que até faz o resmungo soar a ópera. É o único lugar onde ninguém exige nada. Nem simpatia, nem produtividade, nem opinião sobre política internacional

E é nestes momentos sagrados que as inquietações ganham forma. Lembro-me de tudo o que não quero lembrar. Do que devia ter feito. Do que devia ter dito. Do que devia ter ignorado. É o cérebro a fazer faxina enquanto o resto do corpo trata do mesmo.

Alguém há-de dizer que isto é exagero. Que ninguém se ilumina no bidé. Mas quem nunca teve uma epifania de porta trancada e tampo levantado, que atire a primeira pastilha azul do autoclismo.

No fim, puxo o autoclismo como quem manda embora os problemas — com barulho, espuma e a esperança vã de que, quando sair dali, o mundo esteja um bocadinho mais limpo. Ou, pelo menos, menos entupido.


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