O Homem das Borboletas

No centro da clareira, onde a luz se derrama como mel antigo sobre a relva, ele espera.
Sentado, de pernas cruzadas, o torso nu aberto ao mundo, os braços erguidos como ramos.
Já não segura nada. Já não pede nada.

Durante anos, colheu instantes como quem colhe sementes no vento.
Fixou luz em imagens, traçou sombras em papel, prendeu silêncios em versos.
Cada fotografia uma tentativa de deter o tempo.
Cada poema uma âncora lançada ao mistério.
Cada desenho uma tentativa de compreender o que se esconde atrás das formas.

Mas agora — agora, tudo isso se solta.

Do seu peito aberto, sem dor nem resistência, saem borboletas.
Borboletas monarca, vibrantes e serenas, que levam consigo aquilo que nunca lhe pertenceu verdadeiramente:
a memória de uma tarde de chuva desenhada a carvão,
o olhar de uma gata num canto da casa,
uma reflexão escrita à margem de um livro lido pela metade,
o recorte preciso da sombra de uma árvore sobre um muro branco.

Cada borboleta carrega um fragmento de beleza que ele amou e libertou.


E uma a uma, erguem voo.
Não para voltar.
Mas para desaparecer — como é próprio das coisas belas e vivas.

Ele não chora. Não sorri.
Está em suspensão, como uma nota sustentada no ar.
É leve.
É nada.
E nesse nada, cabe o universo inteiro.

Quando a última borboleta desaparecer no fulgor do céu,

ele também se dissolverá.

Não em morte, mas em transmutação.
Em passagem.
Em poema.






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