O Queijo, o Pão… e o meu Guarda-Costas Elétrico
Dizem que tenho um coração valente.
Mentira deslavada.
O que eu tenho é um aparelho – o meu particular guarda-costas elétrico – que funciona como um segurança noturno, sempre de olho, com um desfibrilhador na mão. Ele está lá, quietinho, mas pronto a dar-me um "encontrão" elétrico caso eu me distraia do viver. É discreto, quase invisível, mas presente.
Não reclama. Não dorme. E, segundo consta, tem uma vida útil bem maior que a minha.
Certa altura, dei por mim a pensar nisto com uma lógica um tanto… peculiar. Imaginem a cena:
Um homem, comia pão com queijo. Acabava-lhe o pão, ainda tinha queijo. Acabava-lhe o queijo, ainda tinha pão. E lá ia ele, incansável, juntando mais queijo e depois mais pão. E assim foi comendo, não por fome, mas por uma teimosia rítmica, quase existencial.
Eu sou esse homem. Só que o meu pão é o meu coração biológico. E o queijo, bom, o queijo é o meu guarda-costas elétrico, com a sua bateria incansável, a trabalhar sem parar.
Se um falha, o outro compensa. E lá vamos nós, numa dança macabra de substituições: troca-se o que faltar, ajusta-se a "combustão", muda-se o "gerador"...
Mas a questão que me persegue, com a intensidade de um jingle de publicidade, é: se eu for trocando as "pilhas" do meu segurança elétrico, vivo eternamente?
Eterno... talvez não. Mas pode ser que vá ficando por aqui. Entre um exame do coração e uma sopa morna, quem sabe um dia só o meu guarda-costas elétrico ainda tenha pulso.
Há quem diga que somos feitos de carne e osso. Outros, mais poéticos, insistem que somos alma. No meu caso, começo seriamente a suspeitar que sou uma espécie de garantia estendida com manutenção programada.
E se um dia der o último suspiro, talvez o meu guarda-costas elétrico ainda dê mais um choque, só por descargo de consciência – dele, claro, não minha.

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