O Vidro, o Amor e a Pedra Mal Apontada
Era uma vez, num tempo em que os carros ainda brilhavam nas
montras com dignidade de se acharem arte, que eu passava os meus dias
num stand automóvel instalado no rés-do-chão de um prédio
imponente.
A entrada era feita de três painéis de vidro: um
central, grande como um ecrã de cinema, e dois laterais mais
humildes, quase tímidos — como quem se limita a observar sem se
intrometer.
Do lado de fora, numa espécie de terra de ninguém entre o
passeio e o alcatrão, vivia uma família peculiar.
Eram
jornaleiros — vendedores de jornais, é certo, mas também
especialistas em discutir aos berros e em manter o álcool como
convidado de honra em todos os seus turnos.
O homem e a mulher passavam os dias entre as capas do Diário
de Notícias e os desacatos conjugais.
E nós, lá dentro,
entre uma ficha técnica e um vidro por limpar, íamos ouvindo as
óperas desafinadas daquela dupla trágico-cómica.
Até que um dia, entre o ronronar dos motores e o tilintar do
telefone, ouviu-se um estoiro seco.
Aquele som
que paralisa até o mais distraído.
Silêncio.
Olhares.
Corpos
em movimento sincronizado a correr para a porta.
E lá fora...
um dos vidros laterais do stand, agora feito em
mil estilhaços, reflectia a luz com mais glamour do que qualquer
jante cromada.
O jornaleiro aproximou-se, como quem entra numa repartição
pública depois de um pequeno crime —
olhos semicerrados, voz
arrastada, mãos a gesticular como se desenhassem desculpas no ar.
— Óh patrão… desculpe lá isso, não foi por mal.
Eu não queria acertar no vidro.
A ideia era acertar na cabeça da minha patroa.
Só que ela desviou-se…
Disse isto com o tom de quem lamenta uma multa mal paga.
Sem
drama.
Sem surpresa.
Quase com um certo orgulho técnico na
pontaria falhada.
E foi assim que o vidro morreu —
não por causa da
violência,
mas por causa do mau timing do amor.

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