Os Ocupadíssimos: Uma Ode à Pseudo-Produtividade

Há certas criaturas profissionais que parecem viver num estado de emergência permanente. Estão sempre tão absortas no seu frenesim que o mero ato de lhes dirigir a palavra soa a uma intrusão, uma violação flagrante do seu tempo precioso. Atreva-se a pedir-lhes uma ajuda, uma resposta ou um parecer, e já sabe a melodia que o espera:

— Agora não posso. — Agora não dá. — Agora não tenho tempo.

O tom é invariavelmente dramático, como se estivessem prestes a coordenar a aterragem de um avião com uma só mão, enquanto, com a outra, resolvam a paz no Médio Oriente ao telefone. O "agora" torna-se uma unidade de tempo etérea, exclusivamente reservada para crises cósmicas e decisões históricas. Para o resto da humanidade e dos seus "problemas menores", há sempre um "depois" vago, um horizonte distante que teima em nunca chegar.


O Mistério da Agitação Constante

Curiosamente, o mistério adensa-se à medida que o dia termina. Apesar de todo o frenesim , dos suspiros dramáticos e do semblante de cansaço estudado, a pergunta mais simples e crucial paira no ar, sem resposta:

— Mas… o que é que fizeram, concretamente?

Silêncio. Um encolher de ombros cerimonioso, quase artístico. Talvez uma referência a "assuntos transversais", a "múltiplas frentes em aberto" ou, para os mais audazes, "processos em desenvolvimento contínuo". Expressões vagas, recheadas de uma aparente importância, que sugerem tudo e garantem que nada se confirme. É a arte da dissimulação elevada ao seu expoente máximo.

O mais notável nesta espécie é o talento inato para a ocupação não produtiva. Dominam como ninguém a arte de parecer ocupados, sem que isso se traduza em resultados tangíveis. Estão perpetuamente em reuniões infindáveis, em chamadas telefónicas estratégicas (mas vazias de conteúdo), a responder a e-mails que se auto-replicam, a apagar fogos — figurativos, claro, porque os reais exigem intervenção. Vivem numa espécie de performance contínua, onde o ato de parecer estar a trabalhar é, ironicamente, mais valorizado do que, Deus nos livre, trabalhar de facto.


A Ascensão dos Pseudo-Produtivos

E o pior é que resulta! Muitas vezes, estes "ocupadíssimos" até sobem na hierarquia. Porque, num mundo onde o barulho se confunde com competência e a pressa com relevância, saber fazer de conta é, de facto, uma competência transversal — para usar a sua linguagem preferida.

Há profissionais assim, sim, há.

Estão exaustos, mas não sabem bem de quê.

São imprescindíveis… até que alguém, num acesso de lucidez, repara que, afinal, nada de verdadeiramente importante depende deles. E o mais curioso de tudo? É que nunca, mas mesmo nunca, têm tempo para perceber isso.


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