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Prospera: O Futuro é Privado (e Vigiado)

Ultimamente, tenho-me debruçado sobre a ideia de cidades que se governam a si próprias — como se fossem empresas com logótipos cintilantes, investidores audazes e regulamentos à medida. A minha primeira reação foi: "Lá está mais uma distopia neoliberal de ficção científica, com drones a entregar impostos e tribunais com nome de marca de refrigerante." Mas não. Isto é real. E fica nas Honduras. Chama-se Prospera.

E se isto lhe soa a paraíso fiscal com palmeiras e cocktails tropicais, acertou em cheio.

Prospera é, na prática, uma zona económica especial com leis próprias, juízes contratados a peso de ouro, uma miríade de moedas à escolha do freguês e cidadãos com um contrato de adesão – tal e qual quem se inscreve num clube de golfe exclusivo, só que com tribunais anexos. Parece o sonho húmido de um libertário do Silicon Valley, mas é terrivelmente real. E muitíssimo bem financiado.

Os investidores bradam aos sete ventos que estão a moldar o futuro: cidades-modelo concebidas para atrair talento global, capital sem limites e a mais pura das liberdades. Contudo, os habitantes de Crawfish Rock, uma pacata vila vizinha habitada por comunidades garífunas, contam uma história bem diferente. Foram informados – e não consultados, note-se – de que, de um dia para o outro, passaram a viver ao lado de uma utopia privada. Algumas famílias viram-se confrontadas com propostas para vender os terrenos onde as suas raízes estavam fincadas há gerações. Outras descobriram que precisavam de autorização para entrar onde antes caminhavam livremente. O progresso, parece, chega sempre com entradas controladas e crachás de identificação.

O ponto mais curioso (ou, arrisco dizer, mais perturbador) surgiu quando o próprio Chief of Governance da Prospera – o homem cuja missão era assegurar a transparência e a legalidade – se demitiu. Denunciou publicamente a falta de independência, a pressão política avassaladora dos investidores e a criação de leis ad hoc, feitas sob encomenda. Um mês depois, falava-se que lhe podiam revogar o direito de residência. Afinal, quem entra no clube, sujeita-se – sem apelo nem agravo – às regras do clube. A democracia, essa, ficou à porta – sem pulseira de acesso.

Agora, como se não bastasse, a ideia ganhou fôlego no mundo real das campanhas eleitorais. Donald Trump, em 2023, prometeu criar até 10 "Freedom Cities" em solo americano — cidades novas, construídas de raiz em terrenos federais, com leis especiais, incentivos fiscais e uma espécie de “liberdade personalizada”. Chamou-lhes “um salto quântico na vida americana”. O modelo? Muito semelhante ao da Prospera. E sim, a própria equipa da Prospera já se reuniu com os assessores de Trump, segundo confirmaram fontes da Freedom Cities Coalition. A utopia privada anda de mão dada com o populismo nacionalista — quem diria?

Dizem que este modelo é perfeitamente exportável: para África, para a América Latina, para ilhas remotas e abandonadas. Tudo em nome da inovação, claro, aquela palavra mágica que justifica tudo. O problema é que, aqui, a inovação serve apenas os interesses de quem manda. Os outros – os de sempre, os desfavorecidos – assistem, impotentes, à lenta e inexorável substituição do Estado por uma holding com sede no Delaware.

Chamem-lhe governança disruptiva. Eu continuo a chamar-lhe colonialismo 2.0 com password.

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