Solidariedade ou Palco Flutuante?

Há gestos que se querem nobres.
Mas quando se aproximam demasiado das câmaras, tornam-se suspeitosamente teatrais.

Recentemente, um barco com ajuda humanitária destinado a Gaza foi arrestado por Israel.
A bordo, figuras públicas, ativistas, políticos — e muitas câmaras.
O objetivo declarado: levar auxílio e chamar a atenção para a crise humanitária.

Mas levanta- se uma questão legítima:

Não terá sido o protagonismo mais pesado que a carga?


A ajuda que se vê vs. a ajuda que resolve

É claro que gestos simbólicos têm o seu valor.
Chamam a atenção.
Geram manchetes.
Acordam consciências.

Mas… será que aquele barco transportava mais alívio do que espetáculo?
Mais comida e remédios… ou mais intenção de ser visto a levá-los?

A ajuda real, eficaz e sustentada raramente dá boas fotografias.
Ela acontece nos bastidores, nos armazéns logísticos, nas negociações diplomáticas secas e invisíveis.
Não se faz com microfones.
Faz-se com contentores — e muitas vezes no anonimato.


O paradoxo da ajuda encenada

Num cenário onde cada tonelada de arroz é contada,
um barco mediático, com carga simbólica,
não alimenta, não cura, não abriga.

Serve de alerta, talvez.
Mas também serve de palco.

E pior: pode dar à opinião pública a confortável ilusão de que “alguém está a fazer alguma coisa” —
quando, na verdade, quem precisava mesmo da ajuda continua à espera.


Conclusão?

A pergunta não é “quem tentou ajudar?”.
A pergunta é:

“O que foi feito de facto?”
“Quantas vidas salvou?”
“Valeu mais o gesto ou a manchete?”

A solidariedade genuína não pede atenção.
Pede eficácia.
E Gaza — como tantas outras tragédias — precisa de soluções discretas, eficazes e reais.
Não de barcos que navegam entre o ego e a intenção.

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