A Palestina que Desaparece: Gaza Hoje, a Cisjordânia Amanhã


Durante décadas, o mundo falou da solução de dois Estados como horizonte de paz entre israelitas e palestinianos. Mas essa ideia, tantas vezes proclamada em cimeiras e resoluções, está hoje reduzida a uma miragem diplomática. Gaza está a ser destruída - física, humana e politicamente. E a Cisjordânia seguirá o mesmo caminho.


A unidade de investigação Sanad, da Al Jazeera, revelou que entre abril e julho de 2025, Israel destruiu cerca de 12.800 edifícios em Rafah. A cidade, último refúgio para centenas de milhares de palestinianos deslocados, tornou-se uma paisagem de ruínas. Estima-se que 90% das habitações tenham sido danificadas. Não se trata de danos colaterais. Trata-se de um desmantelamento planeado de toda uma estrutura social e urbana.


Em paralelo, o Ministério da Defesa de Israel anunciou planos de realocação em massa de civis para áreas fechadas e controladas, que foram já descritas - por líderes israelitas, como Ehud Olmert e Yair Lapid - como "campos de concentração". A expressão é dura, mas reflecte o grau de confinamento, privação e desumanização que está a ser imposto.


Este processo é tudo menos invisível. O mundo vê, sabe, calcula. E continua a agir com uma lentidão paralisante. A ONU denuncia, mas não impede. Os governos hesitam, divididos entre interesses estratégicos e o receio de contrariar aliados poderosos. Enquanto isso, quase dois milhões de pessoas são empurradas para uma espiral de fome, desespero e deslocamento forçado.


Falar hoje em "reconhecimento do Estado Palestiniano" pode soar a ingénuo ou até cínico, quando tudo aponta para a sua eliminação prática. Gaza está a desaparecer. E quando isso estiver concluído, a Cisjordânia - já fatiada por colonatos, muros e checkpoints - poderá ser "normalizada" da mesma forma.


A questão já não é "se haverá dois Estados". A verdadeira pergunta é: haverá ainda um povo palestiniano com território, dignidade e futuro?


O tempo de actuar era ontem. Hoje, resta-nos denunciar com lucidez e persistência. E recusar ser cúmplices, por silêncio ou indiferença, de mais uma tragédia escrita à vista de todos

Demolições sistemáticas: destruição planeada

  • A destruição de 12.800 edifícios em apenas três meses não é resultado de combates pontuais — é engenharia de aniquilação urbana.

  • As imagens de satélite mencionadas pela Al Jazeera e pela unidade Sanad são provas objectivas, difíceis de contestar. Não estamos perante exageros nem interpretações ideológicas.

  • Rafah, última “zona segura” em Gaza para centenas de milhares de deslocados, foi convertida num espaço inabitável. A destruição de infraestruturas civis, mesmo em contexto de guerra, viola os princípios de proporcionalidade e distinção do direito humanitário internacional.

“Campos de Concentração” — expressão justa?

  • Este termo, carregado de peso histórico, não deve ser usado levianamente. Mas quando é referido por figuras como Yair Lapid e Ehud Olmert, é sinal de que a realidade ultrapassou os limites da linguagem diplomática.

  • A realocação forçada de 600.000 pessoas, confinadas em zonas isoladas, sem liberdade de movimento, com escassez de alimentos, água e acesso médico, preenche vários critérios de um campo de concentração moderno — mesmo que não haja extermínio físico directo.

  • Não se trata apenas de campos de refugiados improvisados: é confinamento planeado com controlo absoluto por parte de Israel.


Legalidade e moralidade

  • A transferência forçada de populações civis constitui uma violação grave da Quarta Convenção de Genebra, que proíbe este tipo de deslocamento, excepto por razões imperativas de segurança e apenas temporariamente.

  • A Amnistia Internacional e outras organizações consideram estas práticas como crimes de guerra.

  • Além disso, o uso da fome, da sede e do desespero como instrumentos de pressão — arma humanitária — pode configurar crime contra a humanidade.


O colapso da ideia de dois Estados

  • A destruição sistemática de Gaza e o isolamento dos palestinianos não é apenas uma resposta militar: é, na prática, uma tentativa de tornar inviável qualquer futuro Estado Palestiniano.

  • Se Gaza se tornar um arquipélago de campos murados e controlados, e a Cisjordânia continuar fragmentada por colonatos e checkpoints, o projecto político palestiniano desaparece.


Implicações maiores: Estamos a assistir a uma limpeza étnica?

A pergunta precisa ser feita com todo o cuidado: há ou não intenção deliberada de expulsar uma população de forma permanente, destruir a sua base territorial e impedir o seu regresso?

Muitos juristas e observadores afirmam que os sinais já são inequívocos. O padrão — destruição de casas, escolas, hospitais, infraestruturas, isolamento geográfico, expulsão em massa — é o mesmo que caracterizou processos de limpeza étnica em outras partes do mundo.

Responsabilidade internacional

  • A ONU, embora crítica, mantém-se inoperante, bloqueada por vetos no Conselho de Segurança.

  • A maioria dos Estados democráticos ocidentais vacila entre declarações de preocupação e apoio tácito a Israel.

  • E nós, como cidadãos, somos confrontados com o mesmo dilema moral de gerações anteriores: sabemos — e o que fazemos com esse saber?




O "Estado Palestiniano" como miragem

Durante décadas, o mundo falou do “processo de paz” e da “solução de dois Estados”. Mas enquanto se falava, a realidade no terreno foi sendo moldada no sentido oposto:

  • A Cisjordânia foi fatiada com colonatos ilegais, estradas exclusivas para colonos, muros de separação e zonas militares.

  • Jerusalém Oriental foi anexada na prática.

  • Gaza, sob bloqueio desde 2007, foi reduzida a um gueto de sobrevivência.

  • E agora, com a destruição sistemática de Rafah e os planos de confinamento, a própria geografia do território palestiniano está a ser apagada.

Falar em “reconhecimento do Estado Palestiniano” neste contexto é quase uma manobra de cosmética política internacional, que evita enfrentar o essencial: o Estado Palestiniano já foi desmantelado antes mesmo de nascer.


Gaza primeiro. Cisjordânia a seguir.

A estratégia parece clara:

  1. Reduzir Gaza a escombros e torná-la irreconhecível enquanto entidade política e social.

  2. Deslocar a população, desmembrá-la, confiná-la.

  3. Criar as condições para alegar que "não há mais Gaza", e portanto não há com quem negociar.

  4. Avançar depois para a "normalização final" da Cisjordânia, integrando de facto os colonatos e expulsando as resistências que restam.


E o mundo, ?

A maioria dos governos democráticos continua a tratar o assunto como se fosse apenas mais um conflito assimétrico entre dois lados que “devem conter-se”. Isso é moralmente indefensável e politicamente cúmplice.

E, de forma ainda mais perversa, alguns governos estão agora a reconhecer a Palestina não para salvá-la — mas para se protegerem da acusação de terem deixado morrer a ideia sem nada fazer.

O que resta?

Resta denunciar, documentar, preservar a memória e continuar a exigir justiça e dignidade. Porque se o Estado Palestiniano for eliminado, o que virá a seguir será ainda mais sombrio — uma geração sem esperança, um povo disperso, e o regresso definitivo da lógica colonial ao século XXI.


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