A política internacional tem destas ironias amargas: enquanto o Estado da Palestina é simbolicamente reconhecido por algumas capitais europeias, o território que lhe daria corpo está a ser desmantelado, ocupado, bombardeado e, em boa medida, apagado do mapa.
No mesmo dia em que o Parlamento israelita aprova — ainda que simbolicamente — a anexação da Cisjordânia, o presidente Macron declara que a França está pronta para reconhecer o Estado da Palestina. A pergunta impõe-se com brutal clareza: que Estado é esse que se pretende reconhecer?
A situação no terreno não engana. Gaza está devastada por meses de guerra, com milhares de mortos civis, uma crise humanitária sem precedentes e um sistema de saúde em colapso. Na Cisjordânia, colonos armados, protegidos por soldados, expulsam palestinianos das suas aldeias e terras. A violência é sistemática. A ocupação é estratégica. E a anexação — agora formalmente admitida — retira qualquer margem para a ficção diplomática de uma solução “a dois Estados”.
Perante esta realidade, o Acordo de Associação entre a União Europeia e Israel mantém-se intacto. Este acordo, que se baseia formalmente no respeito pelos direitos humanos, não foi suspenso nem revisto, apesar das evidências crescentes de crimes de guerra e de violações flagrantes do direito internacional. No Parlamento Europeu, as propostas de suspensão têm sido sistematicamente bloqueadas por uma maioria política que, ao insistir na neutralidade, acaba por legitimar o agressor.
- O Conselho Europeu, que teria o poder de agir politicamente, não tem demonstrado vontade unânime de invocar o Artigo 2.º, devido à oposição de países como Alemanha, Hungria, República Checa e, em certos momentos, França.
É neste contexto que o reconhecimento simbólico do Estado da Palestina parece um gesto vazio. Ou pior: uma manobra de equilíbrio político, para apaziguar consciências sem alterar nada de substancial. Reconhecer um Estado que já não controla as suas fronteiras, não tem soberania, nem garante de existência, é, neste momento, uma afirmação de boa vontade que chega tarde e com escassa consequência prática.
Enquanto isso, Israel continua a expandir os colonatos, a reprimir com violência qualquer resistência e a contar com o apoio tácito das grandes potências, que preferem manter intactos os seus acordos económicos e diplomáticos. A União Europeia, ao não agir, deixa de ser mediadora e torna-se cúmplice.
O direito à existência de um povo não pode ser apenas declarado. Tem de ser defendido. E se o reconhecimento do Estado da Palestina quer dizer alguma coisa, então o primeiro passo sério seria suspender imediatamente o Acordo UE–Israel, até que o direito internacional fosse cumprido e o futuro da Palestina pudesse deixar de ser apenas uma miragem cada vez mais longínqua.
A manutenção do Acordo UE–Israel, apesar dos factos no terreno, descredibiliza os valores europeus proclamados.
Enquanto isso, reconhecer um Estado palestiniano que está a ser desmantelado em tempo real pode ser lido não como coragem, mas como lavagem de consciência diplomática.

Comentários
Enviar um comentário