✝️ A cruz como espelho: o Ocidente e o que decide lamentar

Nos últimos dias, uma imagem perfurou o véu da indiferença: duas mulheres cristãs mortas por um sniper israelita no pátio da única igreja católica de Gaza. Uma delas segurava um crucifixo. Estavam desarmadas. Refugiadas. E, até esse instante, invisíveis.

A comoção foi imediata. Países que até aqui tinham falado com pinças — quando as bombas caíam sobre escolas, hospitais ou pontos de distribuição alimentar — ergueram agora a voz com firmeza: “Inaceitável”, “barbárie”, “violação do direito internacional”. Chamaram embaixadores. Exigiram explicações. Declararam-se “chocados”.

Mas porquê só agora?


Hierarquias da indignação

Ao longo de nove meses de cerco a Gaza, a contabilidade da dor tem sido avassaladora:

  • Crianças decapitadas por explosões,

  • Recém-nascidos a morrer sem incubadoras,

  • Famílias enterradas vivas sob os escombros,

  • Trabalhadores humanitários mortos aos pares e trios.

E, no entanto, durante esse tempo, muitos dos que agora se insurgem optaram pelo silêncio ou por comunicados diluídos, quando não pela defesa da "autodefesa israelita". A linha vermelha parece ter sido ultrapassada não pelo número de mortos, nem pelas condições atrozes, mas pela identidade das vítimas.

Não foi a injustiça — foi a cruz.


A cruz como espelho

O Ocidente viu-se ao espelho:

  • Uma igreja atingida por tanques,

  • Freiras aterrorizadas,

  • Fiéis cristãos abatidos em oração.

Foi preciso que morressem "pessoas como nós" — ou seja, com os mesmos símbolos, a mesma fé visível, a mesma linguagem sagrada — para que se sentisse o escândalo da barbárie. Como se o sofrimento dos outros — os não cristãos, os “distantes”, os “árabes” — tivesse menos capacidade de comover, de doer, de mobilizar.


O que realmente nos escandaliza?

Talvez o que chocou o Ocidente não tenha sido o ataque em si, mas o facto de:

  • Ter sido tão descarado;

  • Ter deixado tão pouca margem para desculpas;

  • Ter atingido um símbolo que o próprio Ocidente reconhece como sagrado.

É duro admiti-lo, mas a nossa compaixão parece ter uma fé preferida e uma geografia de eleição. Enquanto isso, o resto do mundo assiste e toma nota: da seletividade, da hipocrisia, da ausência de universalismo.


Para que a cruz volte a ser ponte, e não espelho

A compaixão verdadeira é aquela que não escolhe passaporte, religião ou cor de pele.
A justiça só é justiça se for igual para todos.
E a paz que se constrói sobre vítimas hierarquizadas nunca será paz — será apenas silêncio imposto.

Talvez a cruz, hoje, nos sirva como espelho.
Mas que nos sirva, amanhã, como ponte.

Quando o Clamor se Faz Ouvir — Mas Só em Certas Mortes

A condenação internacional ao ataque israelita contra a única igreja católica de Gaza ecoou com uma força raramente ouvida desde o início desta guerra. “Inaceitável”, “barbárie”, “violação do direito internacional” — palavras carregadas de indignação foram pronunciadas por líderes que, até aqui, haviam escolhido a moderação, mesmo quando as bombas caíam sobre escolas, hospitais ou pontos de distribuição alimentar.

Países que antes falavam com pinças ergueram agora a voz com firmeza. Chamaram embaixadores. Exigiram explicações. Declararam-se “chocados”. A morte de cristãos — e particularmente de um padre com ligação pessoal ao Papa Francisco — parece ter rasgado a membrana da apatia diplomática.

O Despertar do Sul Global

Ao mesmo tempo, uma nova frente diplomática está a consolidar-se. O The Hague Group, composto por países do Sul Global, reuniu-se em Bogotá para anunciar medidas concretas contra Israel. São 12 nações que decidiram deixar de esperar pelas potências ocidentais e avançar com ações jurídicas e políticas no Tribunal Penal Internacional.

Este movimento — impulsionado por décadas de frustração com a duplicidade de critérios da comunidade internacional — reforça que o mundo não está dividido apenas entre Israel e Palestina, mas entre aqueles que agem e os que continuam a “lamentar profundamente”.

E quando foram escolas, hospitais e centros de ajuda?

Importa relembrar: antes da igreja bombardeada, já tinham sido destruídos hospitais como o Al-Ahli, escolas da ONU e centros de distribuição da UNRWA. Centenas de crianças, médicos, professores e civis morreram nesses ataques. A maior parte das condenações internacionais, até então, veio envolta em linguagem vaga e diplomática, evitando atribuir culpas diretas a Israel.

Por exemplo:

  • 🇫🇷 França considerou o bombardeamento de um hospital “injustificável”, mas sem consequências diretas;

  • 🇬🇧 Reino Unido expressou “profunda tristeza”, mas evitou responsabilizações diretas;

  • 🇺🇸 EUA mantiveram apoio firme a Israel, mesmo após relatos de crimes de guerra.

Agora, o tom mudou. Porquê?

A resposta pode estar na simbologia. A imagem de uma igreja em ruínas, vítimas cristãs, e a ligação ao Vaticano tornaram o ataque mais próximo do Ocidente cristão. O que para muitos foi apenas mais uma noite em Gaza, tornou-se, para outros, um escândalo.

A seletividade moral não é nova na política internacional. Mas continua a ser profundamente injusta.

🕯️ Por que, então, houve um tom mais forte apenas agora?

Mesmo com condenações anteriores, muitas delas:

  • Tinham um tom cauteloso ou diplomático;

  • Evitavam responsabilizar Israel diretamente;

  • E raramente incluíam medidas concretas como retirada de embaixadores ou quebra de cooperação.

Agora, o ataque à igreja católica levou a um nível de condenação sem precedentes por vários governos que antes falavam com cautela — frequentemente por simbolismo religioso e pela visibilidade ocidental das vítimas.


✅ Resumo comparativo

Situação anterior (escolas, hospitais, ajuda)

Reações típicas

Crianças em escolas e hospitais bombardeados

Condenações diplomáticas com tom cauteloso

A maioria dos líderes evitava responsabilização direta

Protestos vagos, pedidos de investigação

Comunicações moderadas ou adiados

Pouca pressão para responsabilização formal

Após ataque à igreja cristã em Gaza

Reações observadas

Países ocidentais lideres no cristianismo protestam com força

Uso de termos como “inaceitável”, “barbárie”

Cancelamento de embaixadores, exigência de explicações

Chamadas explícitas por responsabilização

Visibilidade simbólica e religiosa amplia impacto moral

Reações firmes de governos antes cautelosos


Conclusão

Toda a vida civil deve importar — seja muçulmana, cristã, judaica ou de nenhuma fé. A coerência moral e o respeito pelo direito internacional não podem depender da religião das vítimas nem da geografia do sofrimento. Se o bombardeamento de uma igreja é, como dizem, “um ponto de viragem”, então que sirva para lembrar que cada hospital arrasado, cada criança morta, cada escola destruída mereciam, desde o primeiro dia, o mesmo clamor.

É tempo de acordar — não só para o horror, mas para a nossa cumplicidade silenciosa.







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