O Impacto Real das Tarifas de Trump: Populismo Político, Prejuízo Económico


Nos últimos meses, o presidente Donald Trump voltou a insistir no uso de tarifas aduaneiras como instrumento político e económico. Tal como durante o seu primeiro mandato, o discurso continua a ser simples e eficaz: "a China está a pagar", "os outros abusaram da América", e "estamos a proteger os trabalhadores americanos". Mas qual é a realidade por trás deste discurso?

Quem paga realmente as tarifas?

Apesar da retórica de Trump, não são os países exportadores que pagam as tarifas. Quem as paga são as empresas americanas importadoras, que depois transferem esses custos para os consumidores através de aumentos de preços. Ou seja, é a população dos EUA que acaba por suportar, na prática, o impacto das medidas.

Estudos económicos independentes, incluindo do FMI, do Federal Reserve e de universidades como Harvard e MIT, são unânimes: quase 100% do impacto imediato das tarifas recai sobre os EUA.


Os gráficos não mentem

Abaixo apresento três gráficos que ilustram o impacto acumulado das tarifas de Trump entre 2017 e 2025:

1. Queda no emprego industrial

O primeiro gráfico mostra uma queda progressiva do emprego no setor industrial desde 2018. Apesar das promessas de "trazer os empregos de volta", a realidade foi uma redução constante.



2. Redução da produção industrial

As tarifas aumentaram os custos de produção, dificultaram o acesso a matérias-primas e reduziram a competitividade das empresas americanas.



3. Aumento dos preços alimentares

O setor alimentar, sensível a variações no custo de importação de fertilizantes, sementes e maquinaria, sofreu aumentos notáveis. As famílias de baixos rendimentos foram as mais penalizadas.



Populismo vs. Realidade Económica

Não se trata de ignorância. Trump tem acesso a conselheiros económicos bem informados. A sua insistência nas tarifas é uma estratégia populista: apela ao sentimento nacionalista, à ideia de vingança económica e à simplicidade de um inimigo externo.

Mas a verdade é que ganham-se votos com slogans, mas perde-se crescimento com tarifas.


 Um novo alerta: os EUA estão a perder influência global

Um relatório recente do Pew Research Center mostra que a imagem dos Estados Unidos está a deteriorar-se rapidamente, mesmo entre os seus aliados históricos como Alemanha, França, Reino Unido e Canadá. Esta queda na confiança deve-se, em grande parte, ao estilo de governação de Donald Trump: unilateral, confrontacional e imprevisível.

Enquanto Trump promove slogans como "America First", a China tem reforçado a sua presença diplomática, económica e tecnológica em vários continentes. Com a retirada dos EUA de acordos internacionais e o desinvestimento na diplomacia multilateral, muitos países começaram a olhar para Pequim como um parceiro mais fiável.

A confiança global nos EUA como líder estável e parceiro leal caiu significativamente, o que se reflecte:

  • na redução da cooperação em matérias de segurança,

  • na perda de influência em fóruns multilaterais,

  • e na preferência crescente por acordos comerciais com a China.

Os democratas alertam que esta erosão da posição americana no mundo não é apenas simbólica: tem impacto directo nas exportações, na segurança internacional e na capacidade de moldar regras globais em sectores estratégicos como inteligência artificial, ambiente ou energia.


Conclusão

As tarifas impostas por Trump e o seu estilo de governação podem dar frutos em votos, mas prejudicam a economia e a posição estratégica dos EUA. O declínio da influência americana é visível nos números, nas relações internacionais e nos dados de percepção pública global.

É fundamental olhar para além da retórica populista e exigir uma liderança que privilegie a cooperação, a estabilidade e a verdade económica.


🌍 O Despertar do Sul Global: Justiça para Gaza e o Fim do Monopólio Moral do Ocidente

No mesmo momento em que a política externa americana sofre erosão, uma nova frente diplomática surge com força: o The Hague Group, um bloco formado por países do Sul Global decididos a agir onde o Ocidente tem falhado.

Durante a conferência do grupo em Bogotá, 12 países anunciaram ações concretas contra Israel para travar o genocídio em curso na Faixa de Gaza. A frase que ecoou nos discursos dos líderes presentes foi clara:

“None of us will be free until Palestine is free.”

O que é o The Hague Group?

Criado em 2024, o The Hague Group reúne países da América Latina, África e Ásia com um propósito comum: responsabilizar Israel pelas suas ações em Gaza, coordenando esforços legais e diplomáticos à margem das potências tradicionais. Entre os membros encontram-se Colômbia, Bolívia, África do Sul, Namíbia, Indonésia e Nicarágua.

Que ações foram decididas em Bogotá?

  • Retirada de embaixadores de Israel e congelamento de relações diplomáticas;

  • Apoio jurídico e diplomático às ações da África do Sul no Tribunal Internacional de Justiça;

  • Submissão de novas provas e testemunhos ao Tribunal Penal Internacional;

  • Lançamento de uma Comissão Independente de Monitorização dos crimes cometidos em Gaza;

  • Apelo à criação de boicotes internacionais coordenados a empresas envolvidas na ocupação;

  • Proposta de reformas estruturais nas Nações Unidas, exigindo a limitação do poder de veto nos casos de genocídio e crimes contra a humanidade.

O significado mais profundo

Esta mobilização representa mais do que solidariedade com a Palestina. É uma declaração de independência moral e geopolítica do Sul Global. Cansados da hipocrisia das potências ocidentais, muitos destes países procuram agora afirmar-se como novas vozes morais numa ordem multipolar.

Tal como durante a luta contra o apartheid, a justiça para Gaza está a tornar-se uma pedra de toque ética da política internacional.

A frase repetida em Bogotá — “Nenhum de nós será livre até que a Palestina seja livre” — não é apenas simbólica. É uma afirmação de que a passividade perante o genocídio desumaniza a todos.


Epílogo

O impacto das tarifas de Trump e a degradação da imagem dos EUA não acontecem no vazio. Estão a ser acompanhados por uma reconfiguração silenciosa da ordem internacional, onde países tradicionalmente periféricos assumem a dianteira na defesa do direito internacional e da dignidade humana.

O Sul Global já não se limita a reagir. Está a agir. E está a liderar.


Artigo redigido por Pedro Baptista, com apoio editorial de Clara. Disponível para republicação livre com menção à fonte.

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