O Lobo Mau Vegano vem aí, e já deixou de comer Capuchinhos Vermelhos há muito — agora frequenta retiros de ioga, é influencer de alimentação crua e faz vídeos a chorar sobre o trauma de ser mal representado nos contos tradicionais.


O Lobo Mau — versão vegana, sensível e injustiçado

Era uma vez um lobo.
Mas não um lobo “mau”, como os jornais do reino insistiam em dizer.
Este lobo chamava-se Lúcio.
Era intolerante à lactose, glutofóbico assumido
e praticava jejuns intermitentes desde que leu um post do Dr. Urso.
Cresceu na floresta a ouvir histórias horríveis:
que os lobos deviam caçar, devorar, disfarçar-se de avós.
"Mas eu só queria cultivar lentilhas."
dizia ele, de lágrima nos olhos e pulseira de cânhamo no pulso.
Um dia, ouviu falar da Capuchinho Vermelho,
uma jovem activista com um canal de TikTok
sobre bolos sem açúcar e crítica ao etarismo nas fábulas.
Lúcio foi ter com ela com um ramo de ervas medicinais.
— Trouxe chá de rooibos fermentado, colhido à mão por gnomos justos.
Capuchinho, desconfiada, filmou tudo com o telemóvel.
— Não confio em predadores com voz suave, mesmo que cheirem a alfazema.
Lúcio tentou explicar:
— Não como carne desde 2018. Fiz terapia somática. Tenho carta do psicólogo.
Mas o trauma intergeracional falou mais alto.
A avó — que, afinal, era directora da Casa de Repouso “Chapéus ao Alto” —
gritou da janela:
— É o lobo! Chamem o caçador!
O caçador chegou em modo crossfit.
Tatuagens de machado e proteína ao pequeno-almoço.
Tentou atacar, mas Lúcio defendeu-se com argumentos.
Citou Foucault, apresentou um PowerPoint sobre reintegração animal.
Foi em vão.
Foi levado pela Guarda Florestal e inscrito no Programa de Contos com Risco.
Hoje, Lúcio vive num abrigo de personagens canceladas:
o Gato das Botas (acusado de excentricidade),
a Fada Madrinha (por favoritismo mágico),
e o Lobo, claro, que escreve memórias com o título:
“Nunca comi ninguém: a verdade por trás da capa vermelha.”
A Capuchinho?
Criou uma associação de apoio a jovens traumatizadas por literatura oral.
E o caçador?
Abriu um ginásio de sobrevivência masculina na serra.
Só aceita pagamentos em carne seca e testosterona.


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