O Silêncio que Vem do Veto
Há silêncios que doem mais do que gritos. E há decisões que, sem uma única bala, ajudam a prolongar guerras. O poder de veto no Conselho de Segurança da ONU é uma dessas decisões. Um voto — apenas um — que pode calar o resto do mundo.
Tenho pensado muito nisso, sobretudo nos últimos tempos, à medida que assistimos, impotentes, à tragédia prolongada em Gaza. Mais do que as imagens, mais do que os números, há um sentimento de bloqueio que incomoda: o mundo quer agir, mas não pode. Porque um só país vetou.
O veto é, por definição, uma palavra que fecha. Não abre diálogo. Não reformula. Diz apenas “não” — e cala tudo à sua volta. Quando usado em contextos de guerra, deixa de ser uma ferramenta diplomática e torna-se uma parede entre os que sofrem e os que os poderiam ajudar.
Dizem-nos que é legal. Que faz parte das regras do jogo. Que é assim desde o fim da Segunda Guerra Mundial. E é verdade. Mas também é verdade que essas regras foram feitas por vencedores, num mundo com medos diferentes e uma geopolítica congelada. Hoje, com civis a morrer às centenas por dia, que sentido faz continuar a jogar esse jogo?
Não é preciso ser jurista para perceber o absurdo. Basta o bom senso. Quando quase todos os países votam a favor de um cessar-fogo humanitário e um só país decide impedir essa acção, não se trata de uma simples divergência. É um acto com consequências reais: mais mortes, mais destruição, mais sofrimento.
É difícil provar legalmente que um Estado se torna cúmplice de crimes por ter usado o veto. Mas o julgamento moral é inevitável — e talvez mais importante. A História não precisa de tribunais para escrever os seus vereditos.
Há propostas em cima da mesa: que se abdique voluntariamente do veto em situações de atrocidades; que se justifique publicamente cada decisão; que se reformule a estrutura do Conselho de Segurança. Mas, até agora, tudo isso soa a bons princípios guardados em gavetas trancadas.
O poder de veto é um privilégio que se tornou um obstáculo. Um resquício de uma ordem mundial ultrapassada. Usá-lo para travar acções humanitárias em cenários de guerra é mais do que uma irresponsabilidade política — é um fracasso ético.
Não sei se a ONU conseguirá reformar-se. Mas sei que a legitimidade de qualquer organização nasce da sua capacidade de agir quando mais é preciso. E, neste momento, o mundo precisa de menos vetos e de mais coragem.
O silêncio do veto não é apenas diplomático. É humano. E custa vidas.

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