O Tiro no Pé de André Ventura: Quando os Nomes dos Alunos Desmentem o Discurso
A recente intervenção de André Ventura no Parlamento, onde leu os nomes de alunos de uma escola de Lisboa, acompanhada da afirmação chocante "Radith? Saahas? Sayma? Nunca serão portugueses!", gerou uma onda de indignação e levantou sérias questões sobre a privacidade de menores e o discurso xenófobo. No entanto, para além da gravidade intrínseca do ato, a própria estratégia do líder do Chega parece ter-se revelado um verdadeiro "tiro no pé" argumentativo.
A Contradição Exposta Pela Própria Ação
O objetivo aparente de Ventura era ilustrar uma suposta "invasão" ou "substituição cultural" que estaria a ameaçar a identidade portuguesa, usando os nomes de crianças como prova visual. Contudo, ao fazê-lo, acabou por expor precisamente o oposto do que pretendia demonstrar.
O simples facto de os nomes "Radith", "Saahas" e "Sayma" pertencerem a alunos de uma escola pública em Lisboa é o maior desmentido aos argumentos que André Ventura tenta veicular:
Integração em Curso: A presença destas crianças no sistema de ensino público é a prova mais cabal de que estão, de facto, a integrar-se na sociedade portuguesa. Estão a aprender a língua, a conviver com colegas de diversas origens e a absorver a cultura e os valores do país através de um dos seus pilares fundamentais: a educação.
Participação Ativa: Longe de estarem à margem, estas crianças participam ativamente na vida comunitária, tal como qualquer outro aluno. A escola pública é um espaço de socialização e inclusão por excelência.
Geração Portuguesa (e Futura): Muitos destes alunos, mesmo que com nomes de origem estrangeira, nasceram em Portugal ou vieram em tenra idade e, legalmente, são ou serão cidadãos portugueses, moldando o futuro do país. A sua integração no sistema educativo é um passo crucial nesse processo.
Ao tentar usar estes nomes como um símbolo de "não-portugalidade", André Ventura inadvertidamente revelou que as crianças com ascendência imigrante estão perfeitamente inseridas no tecido social e educativo português, contrariando a sua própria retórica de "ameaça" ou "não-integração".
O Discurso da Segregação Face à Realidade da Inclusão
A retórica de André Ventura assenta na ideia de uma incompatibilidade entre a presença de comunidades imigrantes e a preservação da identidade nacional. No entanto, a realidade das escolas portuguesas mostra uma imagem de diversidade e inclusão que desmente essa visão. As salas de aula são microcosmos da sociedade, onde crianças de diferentes origens coexistem, aprendem e crescem juntas.
Ao estigmatizar estas crianças com a afirmação "Nunca serão portugueses!", o líder do Chega não só viola a sua privacidade e dignidade, como também ignora a dinâmica social em curso. A nacionalidade não se define por um nome, mas por laços legais, sociais e culturais que se constroem dia a dia, e a escola é um dos primeiros e mais importantes alicerces dessa construção.
Um "Tiro" que Atinge o Próprio Argumento
No fim de contas, o ato de André Ventura, para além de ser amplamente condenável pelas questões éticas e de privacidade, acabou por ser contraproducente do ponto de vista da sua própria mensagem. Em vez de solidificar a ideia de uma crise de identidade causada pela imigração, a divulgação dos nomes destes alunos veio, por ironia, reforçar a ideia de que a sociedade portuguesa é capaz de integrar e acolher, e que a diversidade está já intrinsecamente ligada à sua evolução. É um lembrete de que, por vezes, a realidade é mais poderosa do que qualquer discurso político, mesmo que carregado de intenções divisionistas.
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