O Valor de Não Fazer Nada (ou a arte superior de estar quieto)
Hoje, não fiz nada.
E antes que alguém venha com o dedo em riste, deixo já claro: foi de propósito. Não por esquecimento, nem por desleixo, nem por falta de energia. Foi uma escolha deliberada. Altamente sofisticada. Uma espécie de desobediência civil em pantufas.
Acordei, olhei para o relógio, bocejei com dignidade e pensei: “Hoje não produzo. Que se lixe o mundo.”
Não meditei, não li, não fiz alongamentos, não preparei aveia com chia. Nem sequer abri o e-mail. O cúmulo da rebeldia? Deixei o telemóvel na mesa da cozinha e fui viver perigosamente — ou seja, sem notificações.
E sabem o que aconteceu? Nada. O planeta continuou a girar. O governo não caiu. Ninguém tocou à porta a perguntar se eu estava bem. Parece que o universo lida perfeitamente com a minha ausência produtiva.
Vivemos numa época em que até o descanso tem de justificar-se: “Vou parar um pouco… para depois voltar com mais foco e energia!” Ora bolas. E se eu quiser parar… só porque sim? Só porque estou farto de tentar ser eficiente, relevante e entusiasmante?
Não fazer nada tornou-se um ato subversivo. Uma espécie de terrorismo doméstico. Parece que estamos sempre em dívida com alguma entidade invisível que nos vigia: o espírito empreendedor, a agenda cheia, o feed das redes sociais. Mas hoje, deixem-me informar, não paguei essa dívida. Estou em incumprimento total — e sabe-me bem.
Passei a manhã a olhar pela janela. À tarde, estive 47 minutos a observar uma formiga a tentar carregar um pedaço de bolacha. Grande luta. Apostei nela. Perdeu.
Mas eu ganhei: um dia inteiro em que resisti à tentação de ser útil.
E é isso que deixo aqui : a minha contribuição para a humanidade de hoje é o exemplo glorioso de alguém que decidiu parar. E conseguiu. Sem culpa. Sem drama. Sem agenda.
Talvez amanhã volte a fazer alguma coisa. Ou talvez não. Estou em negociações comigo próprio.

Muito bom!!! É verdade, nada como uma transgressão a nosso favor. Bem merecemos 😀
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