Trump, a banalização do absurdo
Donald Trump está de regresso à presidência dos Estados Unidos e, com ele, uma avalanche de
decisões e declarações que desafiam a lógica, a ética e o bom senso. O mais recente episódio -- o
elogio ao "bom inglês" do Presidente da Libéria, Joseph Boakai -- não é apenas uma gaffe
folclórica. É sintoma de algo muito mais profundo: uma visão do mundo enraizada na ignorância, no paternalismo e numa arrogância estrutural.
A Libéria tem o inglês como língua oficial desde a sua fundação, no século XIX, por
afro-americanos libertos. Boakai não é um recém-chegado às lides internacionais, mas um político
experiente e culto. Ainda assim, Trump mostrou-se surpreso com a sua fluência linguística, como
se esperasse menos dele apenas por ser africano. Não é apenas ignorância -- é condescendência.
E o mais grave? Pouco ou nada se ouve da comunicação social dominante, que já parece ter
desistido de se escandalizar.
É esta normalização do absurdo que mais preocupa. A cada semana, uma nova polémica tapa a
anterior. O ciclo mediático não respira -- e o cidadão comum já não distingue o que é alarmante do
que é apenas "mais um disparate".
Mas o problema é bem mais profundo do que frases infelizes.
O seu novo pacote económico favorece os ultra-ricos e penaliza, como sempre, os mais pobres.
Cortes em programas sociais, desregulação, benefícios fiscais obscenos para quem já concentra a
riqueza. E tudo embrulhado num discurso populista de "liberdade económica". Liberdade para
quem?
Depois temos o aumento das tarifas de importação, promovido como patriotismo económico.
Trump diz que está a castigar os exportadores estrangeiros.
Na prática, está a castigar os consumidores americanos, que pagam mais por bens essenciais, e as pequenas empresas que dependem de cadeias de fornecimento globais.
O protecionismo é uma bandeira antiga -- mas aplicada sem inteligência, é apenas um tiro no pé vestido de bandeira.
Mais grave ainda é o gesto de sanção contra Francesca Albanese, relatora especial da ONU para
os Territórios Palestinianos Ocupados.
A sua "culpa"?
Denunciar o genocídio em Gaza com base em relatórios e investigações.
Ao punir quem denuncia crimes de guerra, Trump transforma os Estados Unidos em cúmplices morais de um massacre.
Tudo isto sob o silêncio da mesma imprensa que, em tempos, fez do jornalismo uma arma contra a injustiça.
Resta agora esperar pelas eleições intercalares.
Talvez aí se revele se os americanos estão dispostos a continuar a embarcar nesta deriva perigosa -- ou se chegou o momento de travar o trumpismo com o voto e com a memória.
Porque quando a ignorância se senta à mesa do poder, e a comunicação social se limita a tirar a
foto, o preço é sempre pago pelos mais frágeis.

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