06 – 08 – 1945/ 06 -08 – 2025

Hiroshima, 80 anos depois
Vejo Hiroshima não como um ponto no mapa, mas como a ferida que a geografia insiste em disfarçar. Vejo o clarão que se fez deus por um instante, e em nome dos homens, anulou tudo o que era humano. Vejo sombras gravadas no chão como assinaturas de almas arrancadas, e oiço o silêncio que ficou, mais ruidoso do que qualquer grito.
Passaram oitenta anos. Oito décadas a empilhar discursos, desculpas, celebrações cínicas da “paz” que veio à força de cogumelo. Chamaram-lhe necessário. Estratégico. Chamaram-lhe fim de guerra, início da ordem. Mas nunca lhe chamaram crime. Porque quem escreve a história são sempre os que seguram a pena com uma mão e a bomba com a outra.
Vejo líderes que ainda hoje falam em paz com as mãos cheias de pólvora, vejo tratados que se rasgam como papel velho ao primeiro vislumbre de lucro, vejo nações que investem mais em mísseis do que em pão. Vejo crianças que nascem sob o zumbido dos drones e crescem sob o medo. E vejo a mesma cegueira de 1945, agora com ecrãs em vez de trincheiras.
Hiroshima foi ontem. Gaza é hoje. As palavras mudam, os corpos não. Num lado, foi urânio; no outro, fósforo branco. A tecnologia avança, a barbárie estagna. As vítimas continuam a ter olhos grandes demais para tanta dor e nomes pequenos demais para os noticiários.
O mundo aprendeu a reconstruir cidades, mas não a consciência. Aprendeu a maquilhar a guerra com retórica, a transformar a morte em estatística, a enterrar os mortos duas vezes: uma sob os escombros, outra sob o esquecimento.
E eu? Eu, homem revoltado, tenho apenas esta visão e esta raiva educada pela ternura. Não para mudar o mundo, que não se dobra com palavras, mas para não fazer parte do coro dos que calam.
Hiroshima arde ainda. Não nas ruas, mas na omissão. E Gaza grita hoje, sem que o mundo escute porque a memória, essa também, foi bombardeada.
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