Quando os números não servem o chefe: Trump e o ataque à verdade estatística

Quando os números não servem o chefe: Trump e o ataque à verdade estatística

A demissão da diretora do Gabinete de Estatísticas Laborais é mais do que um gesto impulsivo. É um sintoma de como o autoritarismo começa: não com tanques, mas com mentiras e intimidações.

A recente demissão de Erika McEntarfer, diretora do Gabinete de Estatísticas Laborais (BLS), por ordem direta de Donald Trump, revela muito mais do que uma simples discordância sobre números de emprego. É um sinal inquietante sobre a forma como o poder político, quando desprovido de contenção institucional e respeito pelas regras do jogo democrático, tenta moldar a realidade à sua imagem.

O relatório publicado em julho pelo BLS, uma agência com reputação de rigor técnico e independência, apresentou números pouco animadores: apenas 73 mil novos postos de trabalho e revisões em baixa dos dados de maio e junho. Em vez de responder com propostas, Trump optou pelo caminho da intimidação — acusando McEntarfer de manipular os dados com motivações políticas e ordenando de imediato a sua demissão. Nenhuma prova foi apresentada. Nenhuma dúvida foi tolerada.

Não é a primeira vez que Trump reage mal a factos que não lhe são favoráveis, mas este episódio ultrapassa uma simples disputa de narrativa. A acusação dirigida a uma técnica respeitada, nomeada por Joe Biden mas com mais de duas décadas de serviço sob administrações de ambos os partidos, representa uma tentativa perigosa de politizar uma instituição fundamental para o funcionamento de qualquer democracia saudável.

Os dados económicos não podem ser reféns da conveniência política de quem está no poder. Uma sociedade informada exige estatísticas fiáveis, protegidas do ruído partidário. Ao demitir McEntarfer por não gostar dos números — e não por falhas na sua conduta profissional — Trump envia uma mensagem clara: no seu mundo, a verdade só tem valor quando o favorece.

A reação crítica de economistas, académicos e até de algumas vozes republicanas mostra que nem todos estão dispostos a aceitar esta deriva. Mas o episódio deixa uma pergunta no ar: quantas instituições mais terão de ser abaladas antes de reconhecermos que a integridade democrática está a ser corroída, não com golpes de Estado, mas com pequenos abusos sistemáticos?

A democracia não morre subitamente. Vai-se desfazendo, uma demissão de cada vez.

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